A Novela da Greve nas Universidades Federais: Mais Audiência, por favor!

Na semana em que a greve das Universidades e Institutos Federais de educação completa 80 dias, o Ministério da Educação enviou ofício aos reitores sobre a conclusão das negociações com a representação sindical dos docentes em âmbito federal. Conforme esse documento, a próxima etapa é a aplicação do plano de carreira docente acordado e aprovado pelos grevistas a partir de março de 2013, encerrando, assim, as negociações com os docentes. Essa foi a notícia dos principais jornais do dia seis de agosto de 2012.

Ocorre que tal informação é falsa. A representação sindical ora apontada foi feita pela PROIFES, entidade que representa uma parcela mínima dos docentes federais e que só tem em sua formação membros indicados pelo Governo, tendo sido criada exclusivamente por interesses políticos.

O Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (Sinasefe) e o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes), que representam a grande maioria dos professores, são contra a proposta apresentada pelo governo.

Desde o início da greve, a mídia propaga aos quatro ventos que o aumento que o governo propõe aos docentes federais será de até 45%, podendo o salário de um professor de 3º grau chegar a R$ 17 mil. Com esta informação distorcida, assim como quase todas relacionadas aos assuntos polêmicos do Brasil, a imprensa passa uma mensagem que ultraja a classe dos docentes federais: o que os professores querem mais? Qual trabalhador tem o “privilégio” de receber um salário como esse?

O que esta mesma mídia tenta passar é que a atual greve das Universidades e Institutos federais, além da paralisação dos servidores técnico-administrativos, é descabida e que as recusas às ofertas do governo são sem razão. Todavia, a realidade dos fatos é outra, contrária à falácia apresentada pelos telejornais.

A proposta apresentada pelo governo federal aos professores em greve não recompõe sequer as perdas inflacionárias dos salários de grande parte da categoria que ficou sem aumento durante cinco anos, segundo a análise preliminar do Comando Nacional de Greve dos ANDES-SN. Os 45% de aumento, anunciado em todos os jornais, atingirá apenas 10% do total de professores em três anos. Esta é a porcentagem de docentes que estão no topo da carreira – Doutores Titulares. Não houve nenhuma proposta sobre a data-base para os professores, continuando à mercê da boa-vontade do governo para ter-se aumento salarial.

Faz-se mister ressaltar que o aumento dos salários dos Deputados e Senadores acontece num estalar de dedos… os demais trabalhadores do Brasil precisam de muita luta e paciência. O que é importante para o Governo parece que é ter apenas salários atrativos para o Legislativo, para, quem sabe, compensar as “agruras” vividas pela classe política. Nenhum jornal anuncia os salários de servidores da Câmara e do Senado, cuja base é de R$ 14.000,00 (quatorze mil reais). Além destes servidores concursados, há milhares de comissionados, indicados por alianças políticas escusas e troca de favores. Mas a mídia se cala. Por que será?

A grande luta dos professores é por alterações no plano de cargos e carreiras. O governo reduziu de 17 níveis para 13, mas aumentou o tempo de progressão de 18 para 24 meses entre um nível e outro, aumentou a carga mínima de hora-aula por semana, aumentou o número de disciplinas, consequentemente diminuindo o tempo para a pesquisa, mas a cobrança em produtividade de publicações continua a mesma.

Um doutor que levava aproximadamente 11 anos para chegar ao topo da carreira, mas pela atual proposta do governo levará aproximadamente 17 anos. Se for um professor mestre (a maioria nas novas federais), levará 21 anos para chegar ao topo. Calcula-se que apenas 20% chegarão à classe de professor Titular. Ou seja, pela nova proposta, a grande maioria -80%- dos docentes nunca chegarão ao topo da carreira.

É assim que o governo quer estimular que bons cérebros permaneçam na Universidade para formar pessoas em áreas estratégicas para o país, como as Engenharias? Os alunos de Engenharia conseguem propostas muito melhores no mercado. Antes de sermos professores somos profissionais altamente qualificados e concorrer no mercado de trabalho privado não é tarefa difícil para a maioria.

Estranha o fato de que este é o governo “dos trabalhadores e sindicalistas”, que alçaram à condição de detentores do poder justamente às custas dos mesmos trabalhadores que agora combatem. Um governo de “esquerda” que ignora uma greve e o prejuízo de milhares de estudantes em todo o país por quase dois meses e só aceitou uma primeira negociação quando já acenava com a possibilidade de corte do ponto.

Mas, segundo a mídia, nada disso importa. A capa da revista de maior circulação do País, por exemplo, na semana em que professores e tantas outras categorias lutam por garantias salariais, em que o Brasil passa pelo maior julgamento político da história, onde mais de R$10 milhões de dinheiro público foram surrupiados, semana de olimpíadas em que se pode observar a falta de incentivo para esportistas brasileiros (o ciclista brasileiro Magno Prado competiu com seu uniforme vergonhosamente preso por alfinetes) e a sobra de dinheiro para obras faraônicas, o que aparece como manchete é a vingança de personagens de uma novela.

Esta informação confirma que a greve tem sentido: se o principal assunto nacional é um capítulo de novela, fica provado o quanto nosso país precisa de EDUCAÇÃO.

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