CAROL E O PRISIONEIRO: o amor no cárcere

Não vejo mais você faz tanto tempo
Que vontade que eu sinto
De olhar em seus olhos, ganhar seus abraços
É verdade, eu não minto

E nesse desespero em que me vejo
Já cheguei a tal ponto
De me trocar diversas vezes por você
Só pra ver se te encontro

Você bem que podia perdoar
E só mais uma vez me aceitar
Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la

Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo, eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho…

(Você Não Me Ensinou a Te Esquecer – Caetano Veloso)

Carol está presa (provisória) por tráfico de droga há um ano e seis meses. A história dela se confunde com a de tantas outras “Carol” presas em todo país. É o relato de uma mulher jovem com uma vida emaranhada na dor, violência, falta de oportunidade, pouca escolaridade e cheia de vontade de viver e amar. É com base nessa sede de amar e ser amada que, nesse texto, tento reproduzir um pouco do amor no cárcere.

Ser presa provisória é ser quase uma condenada pela justiça e uma condenada pela sociedade. Na prática, uma vez no espaço prisional, desconsiderando as questões legais das provisórias e sentenciadas, passa-se pelos mesmos constrangimentos pessoais, pelos mesmos julgamentos sociais e pelos mesmos descasos institucionais. Uma vez presa, “culpada” até morrer!

Para a mulher, o abismo da prisão se inicia no momento em que ela se envolve, independentemente da circunstância ou motivo, com o crime. É nesse instante que se inicia seu desespero. A ostentação proporcionada, principalmente pelo dinheiro do tráfico, faz a mulher analfabeta ficar culta, a feia ficar linda, a pobre ficar rica e a que estava só passar a ter um homem como “dono” – ou para achar que é seu.

É assim que, no mundo do crime, ela vai tentando se encontrar e também vai se perdendo. É assim que ela busca, nos abraços e no vazio dos “criminosos” passos, se perdoar e, nem que seja em um único instante, se aceitar para nunca mais se perder. É na ostentação do “crime” que ela perde a noção do tempo, rompe com o “normal”, confunde a bagunça com amor e seu mundo com o do outro. Mas esse “nunca mais se perder” dura o tempo do fracasso de quem perdeu o chão, dura a fração de segundos necessária para constatar que deu sua vida para tomarem conta, que enlaçou seu corpo e sua alma na desordem do faz de conta, que os desvarios a fizeram tonta e que com a sorte já não conta.

Uma vez presa, essa mulher descobre que o “pior lugar do mundo para se viver” (o presídio) está superlotado, escuro, sujo e tem a silhueta da dor sutilmente desenhada em grades, tetos, paredes e pisos. Descobre que a distância entre a teoria do sistema prisional e a prática dele é a mesma distância que a separa do outro lado do mundo. Que o direito à saúde, educação, atividades, esporte, dignidade e respeito (tudo com previsão legal) não passa de artigo de luxo ou mera ideologia de poucos.

Presa, ela tem a certeza de que para sobreviver nesse abismo é preciso nervos de aço, ter desejos de vida e não de morte ou de dor. É preciso saber se o horror ainda lhe causa espanto e se o amor lhe trás pranto. A partir dessas certezas, a mulher encarcerada decreta seu destino.

Se a mulher escolher passar pelo cárcere sem reação, sem se afetar com nada ou com ninguém, olhando para esse ambiente prisional como um mero agregado de indivíduos isolados, que constituem uma unidade dentro da qual realizam seus interesses[1], ela, direta ou indiretamente, escolhe deixar de viver. Mas, se ela escolhe viver e, consequentemente, amar, se escolher reagir às mazelas desse espaço, ela escolhe ultrapassar os limites, mesmo os físicos, de uma condenação que lhe decreta muito mais que uma pena privativa de liberdade, decreta a perda de sentimentos, desejos, sonhos, renascimento e da própria vida.

O amor no cárcere tem a função de fazer e deixar existir, de dar sentido, nem que seja momentâneo, ao sentimento de resistir a tudo e apesar de tudo. Tem como característica a sobrevivência, não só a literal, pois faz com que o ser amado exista na vida do outro. Assim, na prisão, quem ama enxerga o seu amor quando ninguém mais o vê. Quem ama insere o outro num mundo que só existe na presença desse amor; e, no cárcere, esse mundo tem relação direta com proteção, cuidado, ciúmes, posse, ajuda financeira, respeito, vaidade, amizade, prazer, enfim, a tudo que possa dar à mulher uma posição diferente daquela que teria se não fosse amada. Ou seja, a mulher, mesmo presa, ainda busca segurança nos braços de um amor qualquer!

Para a mulher, no cárcere, o amor move e promove o encontro com o outro – preso ou não. Esse encontro gera nela a necessidade de se manter linda, maquiada, de unha feita e com os cabelos arrumados. A roupa (uniforme) é a mesma, mas sempre é possível customizar. O amor gera autoestima, conserva o referencial feminino, mascara e traz cor ao ambiente sombrio com o qual ela se mistura dia após dia.

Porém, esse amor também a faz vítima e prisioneira, pois, a depender de quem e como se envolva afetivamente, ela está proibida de ter novos relacionamentos, mesmo fora do presídio. Além disso, o “chefe” de determinada facção – no presídio – escolhe quem irá amá-lo (não há opção de aceitar ou não) e uma vez escolhida, a menos que ele morra ou autorize expressamente, a mulher não poderá mais se envolver com ninguém. Em troca ele lhe garante segurança, física e financeira. Algumas vezes, dependendo do “poder” que possua, estende essa segurança tanto para seus familiares como para seus amigos(as), dentro e fora da prisão.

Com Carol não foi diferente. Ela foi presa por tráfico de drogas e quando se viu sozinha em um ambiente prisional misto, com uma população de quase 1000 pessoas, em um espaço físico escuro, apertado, com 6 celas, cada uma com 8 camas, e com aproximadamente 90 mulheres, respondendo por variados tipos penais, sendo a maioria por tráfico de drogas, ela seguiu, talvez por extinto, o mesmo caminho de tantas outras, arrumou um amor que garantisse sua sobrevivência física, financeira (estar presa tem um alto custo) e, principalmente, emocional[2].

Durante o período de convivência com Carol, todos os dias ela vinha arrumada, com os cabelos penteados, unha pintada, maquiada e com batom o mais vibrante possível. Tudo isso porque no final da tarde, ao voltar para cela, passava perto do espaço do semiaberto e via ou era vista, mesmo que por segundos, por seu “marido” (ela o chamava assim, mesmo não sendo casada).

Todas as tardes ela ficava inquieta – era o período que os homens do semiaberto ficavam no pátio – porque conseguia visualizar seu amor através de uma pequena abertura do forro da janela, conseguia enxergar os detalhes do seu “marido”. Contava, toda feliz, os encontros, dizia que os melhores dias no presídio são os de visita, não só porque a família vai visitá-la (muitas nem recebem visitas), mas porque era o momento em que seu amor ia vê-la no pátio. Descrevia, toda satisfeita, o quanto eram bons os dias de visita íntima, chegava a suspirar.

Era perceptível o quanto todo aquele movimento e “encantamento” fazia bem a Carol. Quando dava o horário de voltar para cela, era quase meia hora se enfeitando novamente, retocando a maquiagem e o batom, falava e caminhava na sala como uma criança esperando o doce predileto. Não tinha quem não se envolvesse na história de amor de Carol e o prisioneiro do semiaberto.

À medida que ganhava segurança, Carol contava mais e mais detalhes desse relacionamento, sua euforia era contagiante. Ela sabia todos os riscos que corria ao ter um traficante como “marido”. Dizia que a rivalidade entre as facções do presídio não se limitava aos seus muros, tinha noção, e bem clara, de que uma vez envolvida com o tráfico, todos, em qualquer lugar e circunstância, sempre corriam certo risco de morte. Para ela, sair ilesa desse mundo era quase a mesma coisa que ganhar na loteria.

Contudo, Carol seguia apaixonada. Mesmo sendo um sentimento incerto e de tempo indefinido, ela se dizia totalmente dependente desse amor, ficando exposta ao máximo de sofrimento que o fim da relação pudesse causar. Para ela, a maior dor que poderia sentir não estava vinculada a uma possível traição ou desprezo – ela sabia bem as regras internas dos presídios, válidas para homens e mulheres –, o que mais lhe atormentava era a proximidade do dia que ele fosse liberto. Para Carol, a liberdade do seu “marido” significava muito mais do que perdê-lo, significava o desmoronamento de toda uma estrutura de convívio construída sob o pilar das normas internas do presídio. Ironicamente, a infelicidade de Carol tinha nome de liberdade!

Apesar de ser um sentimento incerto, Carol resistia à prisão, sustentada na satisfação de amar e ser amada, que, como já mencionado anteriormente, no cárcere, esse amor tem inúmeras bifurcações. Ele a “ensinou” a amá-lo e ela aprendeu a depender desse amor. Ao satisfazer seus desejos, o prisioneiro do semiaberto (ou o “marido”) tinha como objetivo final a sustentação e manutenção desse amor ou dessa dependência. Ao agir em nome do amor, ele rompia com o hiato que os distancia e construía um elo de afeição que os vinculava.[3]

Amor é sempre amor. As formas como ele se manifesta é que são distintas. Por isso, o amor entre Carol e o prisioneiro se apresentava, pelo menos da parte dela, como o caminho necessário para a vivência de outras emoções, que mesmo dentro do cárcere ou principalmente no cárcere, são fundamentais para a manutenção da estabilidade emocional.

Antes de terminar o período de convivência com Carol, seu “marido” foi posto em liberdade. A dor era visível. Aquela mulher risonha, maquiada e toda arrumada deu lugar a outra: cabisbaixa, de cara limpa, desanimada e chorosa. Ela sabia que viria um bom período de solidão pela frente e que, se não quisesse passar por todas as consequências dessa solidão, teria que se refazer o quanto antes, levantar a cabeça e recomeçar. Nesse caso, esse recomeço tem nome e endereço certo: outro amor. Imperioso que essa outra relação não fosse de facção contrária a do anterior, que pudesse garantir sua total segurança e que, de preferencia, não tivesse expectativa de liberdade próxima.

Quando tomei conhecimento do fato, ao perguntar sobre seu amor, ela me respondeu: “Ele foi solto e nem se despediu de mim. Porque amor de “bandido” é alvará na mão!”. Segundo ela, pelas “leis” que regulam as relações no mundo do tráfico, era melhor que ninguém soubesse do seu alvará. Então, ao sair para trabalhar ele não voltou mais, preferiu deixar para trás roupas, objetos pessoais e o amor de Carol, a correr o risco de ser morto. Ela sabia que, se ele não voltou nem para buscar suas coisas, jamais retornaria (a não ser que fosse preso novamente) para visitá-la. O que Carol tanto temia aconteceu, acabou!

Então, depois de vivenciar um pedacinho da história de Carol, infelizmente, constato que na tentativa de possuir algo concreto, ela construiu seu castelo alicerçado na areia e quando veio a onda do mar e o vento ele se desmoronou. A ela, então, só restou a dor do abandono, tão bem descrita na letra da música “Você Não Me Ensinou A Te Esquecer”, interpretada por Caetano Veloso. Diz a letra (disse Carol):

Agora, que faço eu da vida sem você? Você não me ensinou a te esquecer, você só me ensinou a te querer e te querendo eu vou tentando te encontrar. Vou me perdendo, buscando em outros braços seus abraços, perdido no vazio de outros passos, do abismo em que você se retirou, e me atirou e me deixou aqui sozinho!”

Assim, mesmo que questionável, o amor que ela nutria pelo prisioneiro do semiaberto era sua fonte de empoderamento, pois lhe garantia a certeza do enfrentamento a toda e qualquer nebulosa situação no presídio. Carol legitimou esse sentimento na certeza da sua importância para a manutenção de sua vida e para o esquecimento da dor no cárcere. Para ela, esse amor era a justificativa fundamental e necessária para a existência de afetos e sonhos dentro de um contexto prisional tão estigmatizado, Era, mesmo estando presa, sua liberdade. O amor que Carol sentia era a sua motivação para resistir à morte e, sobretudo, afirmar a vida.

[1][1] SIMMEL, Georg. 1983. Sociabilidade – um exemplo de sociologia pura e formal. In: MORAES FILHO, Evaristo de (orgs.). Sociologia: Simmel. São Paulo: Ática.

[2] Os dados foram alterados para não identificação do caso em análise.

[3] SIMMEL, Georg. 2006. Filosofia do amor. São Paulo: Martins Fontes.

Thaysa Matos é doutoranda em Direito pela UFBA; Mestre pela UFPB; Especialista em Metodologia e Gestão do Ensino Superior; Graduada em Direito; Professora de Direitos Humanos, Direito Constitucional e Mediação, Conciliação e Arbitragem; Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Gestão Acadêmica, Direito Constitucional, Direitos Humanos e Mediação.

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