barriguda Posted on 19:22

Do amor e seus caracteres

Dentre os temas mais discutidos pelo gênero humano, sem dúvida, não há nenhum tão doloroso e delicioso quanto o amor. Nos dizeres camonianos, o amor, de tão contrário a si mesmo, é um sentimento antagônico, paradoxal e antitético por sua própria natureza. Oponho-me diametralmente à clássica lição, e não faculto ao leitor qualquer expressão esnobe e debochada diante de minha jovial prepotência.

Procuro, já nos primeiros parágrafos, desencorajar o auditório cioso por uma prosa suave e bem condicionada, ou talvez, pela melodia piegas de um coração ritmado. Longe de mim arriscar-me a tal mediocridade. Assevero, sendo claro e direto, que o nutriente de cada termo aqui empregado, de cada mínima construção metafísica, é o soluço descompassado de uma alma inquieta e arredia.

O amor, no sentido mais amplo que o vernáculo lhe atribui, é uma consequência óbvia da existência humana e corolário primeiro da incessante busca por ungi-la de alguma razão. Minha colocação inicial toma cor e forma na carta endereçada por Paulo aos coríntios. Elejo um trecho epistolar da passagem bíblica em comento, e o submeto à apreciação do leitor:

Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência: ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, nada serei.
Entretanto, face à impossibilidade de analisá-lo sob o prisma das suas múltiplas manifestações, delimitarei minhas considerações à esfera do amor enquanto eros (do grego, amor apaixonado, impregnado por desejo e atração sensual). Desprezando agaphe, philia, amizade, compaixão e outros estilos de amor, comporto-me como a criança manhosa, que, diante do menu, escolhe desde logo a sobremesa.

Enclausurados em seus recortes metodológicos, psicólogos, antropólogos, sociólogos e até mesmo estudiosos vinculados à biologia invadem a competência exclusiva dos filósofos e poetas, subjugando-os com a opacidade de seus raciocínios. À guisa de Dom Quixote, ergo o estandarte romanesco para, armado à pena e tinta, digladiar-me com os moinhos da ciência.

O homem é incapaz de atingir a plena satisfação e saciedade: seus desejos e necessidades renovam-se com a constância das ressacas. A todo instante, ele constrói um ideal de felicidade, que, muito embora nunca se dissipe, transforma-se com imprevisível regularidade, às vezes ab-ruptamente. O amor, por si só, constitui parcela considerável deste ideal de felicidade, e, a seu exemplo, vive à mercê dos (dis)sabores do acaso.

Reputando consensual e quiçá notória a observação do parágrafo anterior, dou início à parte mais audaciosa de meu empreendimento filosófico. Aplicando com as devidas adaptações a lei de Antoine Lovoisier ao ideal de felicidade, e admitindo ser o amor um integrante deste arcabouço transcendental, a força do método dedutivo assevera que à parte comunicam-se as características do todo. O amor ideal, neste diapasão, seria mutável e inexaurível.

Calcado nos fins didáticos desta particular situação comunicativa, esgotarei aprioristicamente o conteúdo da infinitude do amor, a ponto de alguma revelação romper os limites do senso-comum.

Sendo o amor ideal naturalmente perene, ou seja, sem intervalos, tudo nos leva a crê que sua existência prescinde de um destinatário. Dado o seu caráter personalíssimo, o amor ideal tem como pressuposto único o sujeito, o indivíduo hospedeiro, seja ele o ser político aristotélico ou o mais solitário dos eremitas. O homem, antes de depositar seu amor noutra pessoa, enamora-se pela sua própria utopia.

Eros, todavia, ganha contornos perceptíveis quando o paradigma do amor ideal confunde-se com a figura de uma pessoa real – melhor seria a expressão “pessoa carnal”, de forma a não estimular a equivocada dicotomia real/ideal. [proposta para uma nova análise]

Seria, portanto, mais puro e verdadeiro o amor sensível (devotado a um ente material) que se compatibilizasse com o amor ideal. Este, e apenas este, reputar-se-ia em amor real. Evidente a influência do diálogo de maturidade intitulado Fédon.

O amor sensível, para permanecer compatível ao amor ideal, precisa estar ciente da segunda característica deste: a mutabilidade. O amor sensível, destarte, rebaixar-se-á da categoria de amor real se não acompanhar as transformações do amor ideal – ou, obviamente, se não conseguir manter-se atento aos seus parâmetros.

O norte prático de minha teoria aponta para o fundamento da efemeridade dos romances. Quando o amor sensível corresponde ao amor ideal, o relacionamento é proveitoso, e os envolvidos desfrutam a ambrósia do amor real. No entanto, à medida que sentidos e idéias se apartam, eclodem a apatia, a discórdia e o horror.

É importância esclarecer que o fim do relacionamento não implica necessariamente no fim da compatibilidade entre amor sensível e amor ideal. Circunstâncias alheias à vontade do casal impedem a limpidez desta correspondência: distância, rotina, conflito de hábitos e interesses… [explanação meramente apositiva].

O esvanecimento do amor sensível não compromete a essência do amor ideal. Findo o romance, o amor ideal permanece inabalável, em detrimento do amor sensível. O distanciamento entre ideal e sensível corrobora a perda do fundamento deste último. Logo, o amor sensível seria ad litteram virtual.

O amor sensível não se confunde com quem o desperta, representa apenas a projeção do amor ideal numa pessoa determinável. O ente material consiste no espelho diante do qual o amor ideal se apresenta e vislumbra seu reflexo, é a parede da caverna inundada por sombras. Tais sombras e tal reflexo é o amor sensível.

Exauridos todos os artifícios retóricos de meu plano inicial, não encontro elementos capazes de substanciar uma conclusão digna da temática abordada. Recorro ao expediente metalingüístico muito mais por respeito aos ditames da boa redação do que para enquadrar-me numa categoria de autores os quais, após debruçarem-se sobre uma perspectiva eminentemente referencial, esboçam uma preocupação (desnecessária) de questionar a pertinência e o apuro estilístico da própria obra.

Confesso que embora tenha na soberba o vício capital da minha personalidade, a este ponto da obra (e pelo menos nele) descuido do preciosismo vocabular e recuso-me a persistir com o fito infantil de convencer o leitor de uma capacidade intelectiva e bagagem cultural que eu mesmo questiono possuir.

Cedo ao lirismo com a lástima de quem fracassou em disfarçar as mais íntimas e recônditas emoções. Meu alter ego exige que eu amasse esta folha de papel e evite a divulgação do texto, sob pena de amaldiçoar-lo à crítica negativa e à indiferença. Sinto-me compelido a reconhecer que a “teoria do amor” é matéria falida, e passo a temer o ridículo.

Ademais, como diria Goethe: Das Wesen der Liebe hat immer etwas french (a natureza do amor sempre tem algo de impertinente).

 

 
Por Igor Carvalho Barbosa
Graduando em Direito pela Universidade Estadual da Paraíba.
E-mail: carvalho.barbosa@hotmail.com

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