ENTREVISTA COM A CANTORA SOCORRO LIRA

Nascida no sítio Silva, zona rural de Brejo do Cruz na Paraíba, Socorro Lira ganhou este ano (2012) o 23 Prêmio da Música Brasileira na categoria regional, com o CD “Lua Bonita – Zé do Norte 100 Anos”.

Confiram abaixo a entrevista realizada pelos editores da revista com a cantora.

Por: Camilo Diniz

Fábio Rolim

Laryssa Almeida

Tess Carvalho

A Barriguda: A música folclórica norte americana conseguiu ganhar projeção internacional, notadamente nos anos 60, a partir de sua vinculação à juventude e à conjuntura política da época, além de sua modernização e inserção de novos instrumentos e tecnologias musicais, o que deu origem ao ritmo mais popular do planeta, o rock. No Brasil este processo ocorreu mais timidamente, com grande resistência de setores artísticos (a exemplo da marcha anti-guitarras), mas tendo ecos na tropicália, e no trabalho de figuras como Zé Ramalho e Alceu Valença. Atualmente, quais são as perspectivas da inserção de novos recursos musicais na cena regionalista, e em que medida isto poderia contribuir com a sua maior popularização, em especial nos setores da juventude urbana?

 

Socorro Lira: De alguma maneira as novas tecnologias ligadas a produção musical e discográfica chegam em toda parte. Às vezes chegam interagindo e às vezes interferindo mesmo, achatando o que é local, ou mesmo regional. E esses “novos” recursos chegam avalizados normalmente pelos grandes centros urbanos que mantém a hegemonia dos meios de produção, em todos os setores. Então, acho que tem muita gente fazendo coisas bacanas, mas não consegue aparecer mais fortemente por não fazer um mero produto de mercado. Hoje, aparece o que vende e há quem pague, porque tem consumidor para tudo.

Penso que arte se vive e se é. Não se mede, é alguma coisa mais próxima da vida, estar além do discurso mercadológico.

A Barriguda: A música nordestina de raiz passa por um momento de grande dificuldade, com a ascensão de novos fenômenos musicais que a subvertem, criando uma música de massas, mas com qualidade poética, melódica e harmônica que deixa a desejar. Como fortalecer as tradições regionais e criar uma música de raiz que tenha qualidade e competitividade?

 

Socorro Lira: Democratizando os meios de comunicação. Em vez de propagar violência e miséria, usá-los para levar arte e informação verdadeiramente importante, às pessoas.

Não gosto desse termo “competitividade”. Arte não compete. O que compete é negócio e mau negócio.

Educação. A palavra é educação e educação da família e na família, não importa o modelo desta. Fico deprimida quando vejo a estudantada que frequenta universidades hoje, ouvir e gostar dessas coisas terríveis que rolam por aí até nas rádios mais bem conceituadas, dizendo que é “forró”, essa coisa genérica e de mal gosto também conhecida como “forró de plástico”.

Educação de verdade para a sensibilidade e formação do gosto, do senso estético. Para a formação de pessoas críticas, para a formação de cidadãos e cidadãs responsáveis pela história dessa terra, desse país. Enquanto a juventude tiver ouvindo e cantando e dançando “beber, cair e levantar” estaremos longe da civilização e mais perto da barbárie, coisa do tipo que aconteceu na cidade de Queimadas (Paraíba), recentemente.

 

A Barriguda: Diante do atual processo de globalização e da força da grande mídia que promove fortemente a musica pop internacional, quais são os desafios da música regional neste cenário?

 

Socorro Lira: Para mim existe música, a música de cada canto, de cada povo. E um artista deve ser porta voz da sua cultura, da sua gente. Os desafios são para tudo o que se aproxima de uma verdade e da beleza. Vivemos num mundo de enganação, de falsidades, de fantasias, de ídolos fabricados, de produto sonoro descartável, mas que encontra eco na cultura de massa, massa de manobra da grande mídia vendida. Essa massificação é efeito do mesmo sistema capitalista que transforma tudo em mercadoria: arte, saúde, educação, direito, justiça… E comunicação. Tudo isso cabe na mesma categoria de produto a ser vendido. Penso que isso merece atenção e discussões mais aprofundadas. Convidem-me para um bate-papo na faculdade! Irei com prazer.

 

A Barriguda: Em sua biografia, você afirma ter, durante a juventude, lutado em sindicato e envolvido-se em movimentos populares que combatiam a problemática social brasileira e latino americana . Dada a atual conjuntura social e econômica do país, você acha que ainda há razões pelas quais lutar? Em sua opinião, qual seria a questão mais merecedora de reivindicações?

 

Socorro Lira: Sou de uma geração que alcançou ainda o fim das utopias na latino-americanas, se é que a utopia tem fim. Achávamos que mudaríamos o mundo para melhor. E acho que, num certo sentido, mudamos mesmo, elegendo um homem do povo para presidente da república do maior país da América do Sul e, mais recentemente, uma mulher que lutou contra a ditadura militar. Não se pode querer que em 8 ou 10 anos, mude-se completamente as estruturas políticas viciadas desde 500 anos atrás, nem se consiga acabar com a corrupção de uma só vez, muito menos com os problemas sociais. Acho que há motivos para comemorar e para lutar. A corrupção é um mal a ser combatido todos os dias e por todos e todas nós. Temos que passar esse país a limpo. Já começamos e foi nesses últimos anos.

 

A Barriguda: Você acha que a música pode ser uma ferramenta útil de combate às injustiças sociais domésticas?

 

Socorro Lira: Acho que música é arte. E arte é expressão da vida e, como tal, deve estar livre, tem que ser livre, precisa ser livre para falar o que sente e pensa. A criação artística não pode ter placa branca nem necessariamente ser panfletária.

 

A Barriguda: As suas raízes do sertão paraibano estão presentes em sua arte, recentemente, você foi a vencedora do 23° Prêmio da Música Brasileira, na categoria regional. Quais foram suas expectativas ao se inscrever para concorrer a este prêmio? Em sua opinião, de que forma essa premiação pode ensejar a divulgação da música regional nordestina que, ainda, é muito estigmatizada, especialmente, nas regiões Sul e Sudeste do Brasil?

 

Socorro Lira: Sim, minha música tem muito do sertão porque eu sou parte daquele lugar. E gosto disso. Não saberia falar de outra vida senão da minha vida, ali, quando criança. Mas hoje minha terra não me ouve. A Paraíba não entende o que digo nem a minha canção. Vivo numa grande cidade onde há lugar para tudo e todo mundo. Não é somente o Sul e o Sudeste que, talvez, possa ainda renegar a música que é feita em outras regiões do país… Quem não gosta da nossa música é a nossa gente mesmo, é a própria Paraíba, somos nós que a desconhecemos. Não precisa que alguém de fora não goste, muitos de nós ignoramos o que temos e quem somos. O que a juventude sabe hoje sobre Jackson do Pandeiro, Zé do Norte, Cátia de França? Só saberá se alguém propiciar esse conhecimento.

É só depois do Sul e do Sudeste validarem um ou uma de nós, que a nossa terra nos percebe, e olhe lá! Tem sido assim, mas isso pode mudar. É comum, por exemplo, em alguns projetos que rolam por aí, o artista que vai daqui ganhar o cachê mais vultoso e o que está aí, o chamado “artistas da terra” (de novo um rótulo) recebe a décima parte desse valor. E por que isso? Porque não nos reconhecemos como valorosos também, sem que o mundo de fora diga isso antes. É uma pena, mas é assim que é, ainda.

 

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