Entrevista com Ariano Suassuna

Por:

Laryssa Almeida, Editora – Chefe da Revista A Barriguda
laryssalmeida@gmail.com

Natally Coelho, Editora da Revista A Barriguda
natallycoelho@gmail.com

Vinicius Leão de Castro, Editor da Revista A Barriguda
Viniciusleaocastro@gmail.com

Fábio Rolim Revisor Gramatical da Revista A Barriguda
fabiorolimcg@yahoo.com.br

Colaboradores:

Adraniele Oliveira

Daniel Regis

A BARRIGUDA: A Associação dos Magistrados do Brasil lançou em 2005 uma campanha nacional sobre a Simplificação da Linguagem Jurídica objetivando aproximar a Justiça do Povo, pautado na ideia de que uma linguagem de fácil compreensão auxiliaria nesse processo. O senhor, defensor da ideia de que “é possível escrever sem erros ortográficos na linguagem coloquial” e como Bacharel em Direito como se posiciona diante da campanha iniciada pela AMB?

ARIANO SUASSUNA: Concordo! Sou a favor sim! A linguagem jurídica precisa ser acessível, antigamente o judiciário se comunicava de forma muito difícil e confundia muito a população, o povo não entendia. Era da mesma forma na igreja, onde o padre fazia a missa em latim e o cristão não entendia. O que se via, era coisas como a precatória. Engraçado a linguagem da carta precatória, lembro-me que ela terminava dizendo “a presente precatória é expedida para que V. Exa. se digne realizar o solicitado, dando especial atenção à Deprecante, que retribuirá em idêntica oportunidade”. Por isso sou favorável sim! A linguagem jurídica precisa ser simples e acessível para que o povo possa entender. Como a linguagem jurídica não é uma linguagem artística, sou a favor da simplificação.

A BARRIGUDA: A Revista eletrônica A Barriguda tem como escopo principal aliar Direito às artes e a cultura, procurando enxergar o Direito como produto da sociedade e consequentemente interagindo com esta através da cultura. Foi durante os seus anos de estudo na Faculdade de Direito do Recife, onde conheceu Hermilo Borba Filho, que o senhor fundou, juntamente com ele, o Teatro do Estudante de Pernambuco. O senhor acredita que aliar Direito às artes pode funcionar como uma forma de diminuir a rigidez formal existente em algumas camadas do Judiciário?

ARIANO SUASSUNA: Acredito sim. Pelo menos um tipo de literatura tem um tipo de ligação especial com o direito, o teatro. Eu e Hermilo criamos o Teatro do Estudante de Pernambuco, foi muito bom. Quando fiz o “Auto da compadecida” criei um juiz, que foi Cristo, um advogado, a Compadecida – Nossa Senhora, e um promotor, o Diabo, pois, na visão popular, advogado é o que defende; promotor é o que acusa.

A BARRIGUDA: De acordo com algumas entrevistas já veiculadas na mídia, o senhor, durante a repressão da ditadura, escondeu em sua própria residência amigos que estavam relacionados à cultura e que eram perseguidos pelos militares. Hoje, como um homem com tantos anos dedicados a produção cultural como o senhor descreveria os anos de governo ditatorial no Brasil?

ARIANO SUASSUNA: É foi meu amigo Luiz Bronzeado. Como toda ditadura, foi uma ditadura violenta. Sou e sempre fui de esquerda, mas jamais fui e jamais serei marxista. Fiz o possível para ajudar meus amigos, no entanto, os militares não me viam com maus olhos, pois era contra o apoio da esquerda ao Partido Comunista. Os militantes de esquerda fizeram muita coisa errada. Quando eu falava contra o imperialismo americano eles me aplaudiam, mas ao falar da perseguição aos intelectuais na União Soviética, diziam que eu era vendido ao ouro de Wall Street. Veja eu perdi meu pai muito cedo e fui privado da sua convivência, por isso sou contra qualquer manifestação de violência, seja pelo motivo que for. Tenho horror à brutalidade e à crueldade. Vocês são muito novos talvez não saibam, mas o czar Nicolau II e sua família foram aprisionados pelos bolcheviques na Casa Ipatiev em Ekaterimburgo. Nicolau II, sua mulher, seu filho, suas quatro filhas, o médico da família Imperial, um servo pessoal, a camareira da Imperatriz e o cozinheiro da família foram assassinados no porão da casa pelos bolcheviques, disseram a eles que iriam tirar uma foto, quando todos se aprontaram foram fuzilados, por essas razões continuo a dizer que isso foi um ato de crueldade, apesar de quem fossem, pois eram seres humanos. O filho dele tinha 12 anos, qual a culpa que uma criança tem? Não justifica a desculpa de que quando crescesse o menino poderia querer se vingar, ela era uma criança e foi morta. O médico e os demais empregados que não tinham nada a ver, mas foram assassinados. Tenho horror à brutalidade e à crueldade.

A BARRIGUDA: Um vídeo intitulado “Funk do Suassuna” que hoje conta com 38.991 exibições no you tube, no qual sua figura aparece cantando uma música, que, segundo sua fala, é de autoria de alguém que tentava convencê-lo acerca dos hits que fazem sucesso na atualidade. De forma até bastante espirituosa, o senhor critica as músicas que têm feito sucesso na mídia brasileira. Em sua opinião, qual a razão de tantas músicas com letras grotescas e que muitas vezes desmoralizam a mulher serem tão bem recepcionadas por uma parcela considerável da sociedade?

ARIANO SUASSUNA: Nossa! Acho, inclusive, que vou seguir a carreira de funkeiro, nenhum dos meus livros vendeu tão bem assim! (risadas). A mídia pretende nivelar a programação pelo gosto médio, o que é pior que o mau gosto. Esse é o problema. Shakespeare, por exemplo, tinha mau gosto, pois em “Romeu e Julieta” há uma passagem onde Romeu diz que desejava ser uma mosca para pousar nos lábios de Julieta, quer coisa mais brega?!. Algo até anti-higiênico (risadas). Por isso, há gênios com mau gosto ou ótimo gosto. Esse é o problema da música atual, o gosto médio.

A BARRIGUDA: Na contemporaneidade, a publicação e circulação de obras alavancaram o surgimento de muitos escritores. Que autores contemporâneos o senhor destaca no cenário mundial e recomendaria a leitura de suas obras ao público?

ARIANO SUASSUNA: Sou um grande leitor, no entanto mais do que isso eu sou um releitor. Releio muito livros que já conheço e gosto. Veja certo dia um escritor me mostrou um livro chamado “Pergunte ao pó”, falando ser uma obra-prima, e de fato não era, o livro falava sobre cocaína, qual o interesse que eu tenho sobre esse tema?(risadas). Prefiro reler Don Quixote, tendo em vista que meu tempo é muito curto. Gosto muito de ler Alexandre Dumas e Sartre, apesar do primeiro escrever romances infanto-juvenis. Mas, temos bons autores modernos, Milton Hatoun, “Lavoura arcaica” de Haduan Nassar, Raimundo Carneiro com “A história de Bernardo” e “Soledade, tigre do sertão”.

 

2 comentários

Muito boa a entrevista com o Ariano. E quanto mais eu leio escritos dele, mais eu o admiro. Parabéns a equipe da revista. Adorei o site.

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