Entrevista com Bráulio Tavares

Por:

Fábio Rolim

Natally Coelho

Laryssa Almeida

A BARRIGUDA: Recentemente, a mídia nacional se voltou para o depoimento escrito, em uma rede de relacionamento, pela paulista Mayara Petruso, estudante de Direito, no qual ela dizia: “Nordestino não é gente, faça um favor a São Paulo, mate um nordestino afogado!”. Na canção de sua autoria “Nordeste independente”, nos primeiros versos você diz: “Já que existe no sul esse conceito que o nordeste é ruim, seco e ingrato, já que existe a separação de fato, é preciso torná-la de direito”. Diante das repercussões causadas pelo depoimento da paulista e em face da afirmação da canção de que o sul do Brasil muitas vezes é preconceituoso, você acredita que políticas sociais de divulgação e acesso à cultura local podem influenciar na retratação da força nordestina e sobrepujar, pelo menos em parte, o preconceito?

BRAÚLIO TAVARES: Eu acho que o preconceito sudestino, vamos dizer assim, do pessoal do sudeste em relação ao Nordeste é mais uma questão de ignorância porque eles não conhecem o Nordeste. Eu moro há trinta anos no Rio de Janeiro e eu já me deparei com muitas pessoas inteligentes, cultas, pessoas não preconceituosas, mas que iam conversar comigo e perguntavam: você vem de onde? E eu dizia: Venho de Campina Grande. E você saiu de lá por causa da seca? Não, saí porque adoro o Rio, todo ano eu vinha fazer turismo no Rio, gostei daqui e quis morar aqui. Então você não veio em busca de emprego? Não, inclusive se eu tivesse ficado em Campina Grande eu seria talvez o prefeito da cidade, ou presidente do Treze, entende? Eles acham isso, eles veem as cidades do Nordeste como cidades pequenininhas, uma igrejinha, a pracinha, a delegacia. Um curral de vaca, e é assim. Então, existe muita desinformação.

Por outro lado, a gente precisa ver uma coisa, a grande migração nordestina que houve para o Rio e principalmente para São Paulo. Então, um paulistano médio ao longo de sua vida, se ele encontrar cem nordestinos, provavelmente noventa e tantos desses nordestinos vão ser pessoas bem humildes, bem pobres, de escolaridade bem baixa e que foram para lá para trabalhar como operário. Claro, foram para lá como trabalhadores. Não é pelo fato de o cara não ter curso universitário ou coisa parecida que ele não é uma pessoa importante. É tão importante que o chamaram para lá para trabalhar; mas, existe essa visão porque você nunca foi naquele lugar. Por exemplo: você nunca foi a Argentina, se você conhece dez argentinos e os dez são pobres, você fica com a ideia de que a Argentina é um país pobre; os dez argentinos são mau educados, aí fica a ideia de que a Argentina é um país de mau educados, embora não seja; você conhece dez argentinos que são beberrões, você pensa que na Argentina todo muito é daquele jeito e assim por diante. Esse contato pessoal é muito importante para a formação dos nossos conceitos que às vezes se transformam em preconceitos quando você se recusa a revê-los à luz de novas experiências, isso em primeiro lugar.

Agora, nós temos preconceito também. Por exemplo: eu moro no Rio a esse tempo todo, aqui no Nordeste, aqui na Paraíba existe uma ideia de dizer que todo carioca é malandro, metido a espertalhão, carioca é mentiroso, contador de vantagem e desonesto. Eu vejo muito isso aqui, como você consegue sobreviver numa cidade onde todo mundo é mentiroso e desonesto? Mas não é! Quem foi que disse que todo carioca é desonesto? Ah, todo carioca que chega aqui é contanto vantagem, dizendo que é rico, que tem isso, que é amigo de num sei quem na Rede Globo etc. Claro! Isso tem muito no Rio de Janeiro, como em Campina Grande ou em qualquer outro lugar, mas fica uma imagem do carioca, que é real, que existe muito carioca dessa gente, mas que não corresponde ao carioca de uma forma geral, que é outra coisa.

A BARRIGUDA: Então, na verdade políticas sociais de divulgação da cultura, assim como o turismo pudessem auxiliar no sentido de as pessoas se conhecerem e, de certa forma, desconstruir determinado conceito.

BRAÚLIO TAVARES: Promover um intercâmbio maior é outra coisa que eu acho importante. Levar a cultura do Nordeste para ser mostrada lá, para que eles nos vejam não como retirantes famintos que estão fugindo daquela terra horrorosa onde eles vivem, mas que vejam. Mesmo quando o cara vai embora, dizer assim: Olha, nós somos pessoas que temos, por exemplo, uma cultura maravilhosa de teatro, de música, de poesia, de tudo, agora, falta oportunidade de trabalho que nós estamos vindo buscar aqui em São Paulo. Nordestino quando vai para São Paulo, não é porque ele ama São Paulo, é porque ele não consegue sobreviver no Nordeste. A grande maioria dos nordestinos que migram, o fazem a contragosto. Eu não migrei a contragosto, mas eu sou de uma classe privilegiada, eu sou uma cara que fez universidade, sou de classe média, não fui para o Rio obrigado a ir, fui por uma opção. Se eu quisesse, poderia ter ido para a Europa também, minha família tinha condições de me manter pelo menos um ano na Europa até que eu achasse um emprego e ficasse até hoje por lá sobrevivendo. Então, eu não sou um migrante, e eles veem o nordestino sempre como um migrante que está fugindo de uma terra horrorosa que ele detesta e não é isso. O nordestino ama sua terra, na hora que ele junta uma grana, ele volta.

A BARRIGUDA: A revista A Barriguda tem uma seção intitulada cine-jurídico, cuja proposta é discutir Direito através de filmes. Como roteirista, e também por muitos considerado o melhor autor brasileiro de ficção científica da atualidade, como você avalia a produção cinematográfica hoje? E como o cinema pode contribuir com o ensino/educação, assim como na formação de identidade?

BRAÚLIO TAVARES: O cinema é muito importante. A gente tem uma certa tendência a ver como cinema o cinema norte-americano, que é padrão para todos. Nós temos na Literatura, no cinema, grandes personagens. Conversando com um amigo meu, advogado, dias atrás, e eu perguntei a ele: Você já leu os livros de Perry Mason? Aí ele disse: “Não, quem é?” Perry Mason é um advogado detetive da literatura judicial note americana muito traduzido aqui no Brasil cujo autor se chama Erly Stanley Gardner. Eu li demais esses livros quando tinha 13, 14, 15 anos que eram coleções de bolso que vendiam nas bancas de revista. Dessa série de advogado, dessa série de Perre Mason, eu não li menos de 30 ou 40 livros porque são muitos. O cara escreveu mais de cem, esses livros eram publicados em edição de bolso. Quem era Perry Mason? Ele é um advogado da Califórnia, todo dia ele está lá no escritório e chega um cliente envolvido num crime dizendo a ele: “Eu tô sendo acusado de um crime, não fui eu que cometi e a polícia está atrás de mim. Cabe ao senhor provar que eu sou inocente e descobrir o verdadeiro culpado”.

Aí ele prova que o cara é inocente e descobre o verdadeiro culpado. Todo livro dele é isso. Só que os crimes são os mais complicados, e ele é um advogado cheio de recursos, escrupulosamente honesto, mas que para defender o cliente dele, ele força fechadura, entra pela janela, remexe as coisas, rouba documento, manda a polícia numa pista falsa enquanto ele vai na pista verdadeira, e sempre os livros de Perry Mason terminam numa cena de tribunal que ocupa assim 50, 60, 80 páginas que é ele debatendo com o promotor. O cara cheio de provas e ele muitas vezes defendendo o cliente, e o cara apresentando provas e a secretária do lado dizendo: “Como é que você vai sair dessa?” E ele responde: “Me pergunte daqui a cinco minutos quando ele terminar de falar porque eu não tenho a menor ideia do que é que eu vou dizer”. Ele é um orador fantástico, uma mente rapidíssima no gatinho, os livros dele são extremamente interessantes. Claro, que não se adaptam para a realidade brasileira, mas mostram uma realidade do advogado que muitas vezes não é só um cara que tem os compêndios jurídicos na mão. Ele tem um pouco de detetive também, ele tem que adentrar a vida das pessoas, pegar o carro, ir atrás, entrevistar um, entrevistar outro, perguntar uma coisa, anotar… Enfim, ele vira um detetive, e ele, o Perry Mason, é talvez o advogado detetive mais famoso da literatura policial norte americana. Nós temos quase um equivalente a ele aqui que é o Mandrake, criado por Rubem Fonseca, livros como A Grande Arte e outros. O Mandrake é um advogado, mete-se numa série de crimes e tramas, onde ele age também como um advogado detetive. O Mandrake já foi transposto para televisão, e era interpretado por Marcos Palmeira. Então, eu acho que essas coisas são interessantes para você levar para sala de aula, projetar esses filmes e debater com a galera.

A BARRIGUDA: Na última semana, o Ministério da Cultura disponibilizou o projeto que alterará a lei que trata sobre direitos autorais. Contudo, no que concerne ao tema, a lei não mencionou a questão acerca dos direitos autorais de material veiculado via internet. Diante do forte impacto que a internet tem promovido, ela se tornou paradoxal: muitos artistas deixam de receber royalites em face da circulação de seus trabalhos gratuitamente; por outro lado, outros tornam-se conhecidos em virtude dela. Qual a sua opinião acerca do assunto?

BRAÚLIO TAVARES: Isso é uma coisa muito complicada porque fica muito difícil na internet você calcular cada usuário, cada computador, cada máquina que aí pode ser um computador de mesa, pode ser um notebook, pode ser um palm top, pode ser um iphone e tudo mais que você baixa textos e músicas.

Tem uma solução que eu já ouvi mil discussões sobre isso e que é algo altamente complexo, que seria o seguinte: você pagar, na sua conta de telefone, a sua conta de acesso à rede telefônica por onde você acessa a internet. Eu acho que seria mais ou menos assim: você teria várias faixas, por exemplo: faixa A, quem baixa músicas; faixa B: quem baixa músicas e textos; faixa C: quem baixa músicas, textos e vídeos. Tudo isso teria que ser discutido para especificar quem seria de cada faixa. E quando você fizesse a sua assinatura de conexão, teria assim: em que faixa você pretende se colocar? A, B e C, por exemplo. So mesmo jeito que as tv`s a cabo oferecem vários planos e em cada plano você tem um menu de canais à disposição. Então, planos diferentes, faixas diferentes. Para a internet isso seria cobrado de todo mundo na conta de saldo.

Porque, por exemplo, eu pago mensalmente de tv a cabo e internet uma quantia de R$230, mais ou menos. Para mim era indiferente eu estar pagando R$230 hoje, e no mês que vem eu pagar R$250, ou seja, R$20 reais eu pagaria a mais por mês com o direito à música que eu quisesse e ao filme que eu quisesse. Eu não me queixaria absolutamente de nada disso. Baixar uma quantidade ilimitada – o que eu não baixo tanto, eu baixo um filme por mês, se muito for, só que por esse filme eu pagaria R$20,00 que é o preço que custa um filme ali na esquina. Eu já fui sócio de sites onde eu pagava dez dólares por mês, esse valor seria equivalente hoje a dezessete reais e tinha direito a baixar quarenta músicas e não era acumulado par o outro mês. Se eu não baixasse as quarenta músicas, morreu aí, e às vezes eu não baixava, só por falta de tempo. Eu pagava, mas não baixava. Dentro da minha faixa de poder aquisitivo, há grande parte da população que tem acesso à internet no mundo inteiro e que faria a mesma coisa de pagar vinte reais e poder baixar filmes, livros… E esses vinte reais fossem para um grande fundo que seria redistribuído com o que foi baixado praquela área. Digamos: no Nordeste do Brasil, foram baixados 52.000 livros, 50.000 músicas e 1.000 filmes, então redistribuía esse dinheiro arrecadado ali. Acho que contentaria todo mundo.

A BARRIGUDA: Apesar de ter um trabalho bastante diversificado, em entrevista veiculada em Fortaleza para o programa “Nomes do Nordeste” você afirma que, apesar de os resultados serem bastante diversificados, o seu trabalho é basicamente o mesmo. Logo, você se intitula como um “profissional do texto”. Qual a força do texto, seja ele uma coluna, um artigo de opinião, um roteiro ou um cordel, para retratar a sociedade e exteriorizar as suas necessidades?

BRAÚLIO TAVARES: Olha, eu posso estar puxando muito a brasa para minha sardinha, mas eu acho que a palavra ainda é o mais forte e o mais flexível meio de expressão. Não estou menosprezando a música, a melodia, não estou menosprezando a dança, a expressão do corpo, não estou menosprezando a expressividade de uma pintura numa tela e assim por diante. Agora, a palavra serve para tudo: serve para você produzir textos não-ficção, textos de ficção, textos poéticos, volumes de Direito, os compêndios das leis e das jurisprudências da humanidade toda… Se não existisse a palavra, como você iria expressar isso? Através da dança, da música? Até poderia, mas ia ter que criar uma outra civilização, uma outra cultura baseada nisso. Mas na nossa civilização a palavra é importantíssima, a palavra entra em quase todas as artes, ela entra até na pintura, ela entra na canção. A música pode ser só instrumental, mas ela pode ser cantada também; ela entra no teatro, entra na pintura e muito pintores como Picasso pegavam manchetes de jornal e faziam colagem e tudo mais. Acho que talvez a escultura seja a única forma de arte que a palavra não entrou ainda. Inclusive, é uma boa ideia esculpir um poema em mármore, ou em acrílico, algum material. Isso aí seria uma escultura da palavra, tive essa ideia agora (risadas)

A BARRIGUDA: Você é um artista que transita muito bem pelos mais diversos gêneros literários. Depois de obras como “Sai da frente, que lá vem o filósofo”, “A Espinha Dorsal da Memória”, “A Máquina Voadora”, “Como Enlouquecer um Homem: as Mulheres Contra-Atacam”, “ABC de Ariano Suassuna”… o que o leitor vai encontrar em seu novo livro “A Nuvem de Hoje”?

BRAULIO TAVARES: A nuvem de hoje é um livro despretensioso porque, na verdade, é um livro que não foi escrito. São minhas crônicas diárias do Jornal da Paraíba que virou um espécie de diário pessoal meu, diário de leituras, diário de filmes que eu vejo, coisas que eu encontro na rua. Eu ando sempre com um caderninho e uma caneta no bolso anotando as coisas. Se estou conversando numa mesa de bar e surgiu uma ideia “a escultura da palavra”, é só colocar aqui que eu lembro o que é e já faço um artigo sobre isso. As ideias estão aí e eu digo muito aos meus amigos que dizem: “eu estou com uma ideia para um filme, eu estou com uma ideia para um livro…” Vá escrever!!! Porque, sabe onde é o lugar que tem o maior número de ideias do mundo? O Bar Amarelinho na Cinelândia, o lixo do bar Amerelinho na Cinelandia, porque os caras ficam ali tomando uma e jogando ideia. As ideias sobem e caem no chão, quando é de noite o garçom chega e varre aquelas ideias. Por noite são 1.000, 2.000 ideias e vai tudo para o lixo. Por isso não deixe sua ideia cair no chão. A ideia tem que ficar na cabeça ou anotada em um papel, de preferência para que você corra atrás. E a coluna de hoje serve disso para mim. Eu coloquei esse título porque uma coluna de jornal é como uma nuvem: você olha para o céu e ela está ai, parece que está parada; vem aqui amanhã, neste mesmo lugar, neste mesmo horário, cadê? Ela não está, mas tem outra; é outra nuvem, diferente, parecida, mas é outra. A coluna do jornal funciona assim. Meu pai me dizia: “Não fique feliz quando está escrevendo para o jornal. Escreva tudo em um livro, pois o jornal passa e o livro fica”. E isso é uma grande verdade.

Então, esse espaço que o Jornal da Paraíba me dá diariamente já me serviu para publicar poemas, contos, memórias sobre Campina Grande, coisas que eu lembro ou os caras mais velhos como Biliu e outros. Então, falar de ficção científica, falar de tecnologias novas, tecnologias antigas, falar de literatura, teatro, forró, de rock and roll… É um espaço pelo qual eu tenho a agradecer ao Jornal da Paraíba. Eles nunca me sugeriram um assunto, e nunca me proibiram um assunto. Disseram: “O espaço é seu, dentro das leis de imprensa vigente no país você pode colocar ali o que você bem entender”. Nunca tive divergência com a direção do jornal. São oito anos e já publiquei mais de 2.500 artigos que estão também no meu blog. Todo esse material está lá, mas como eu sei que um livro é importante, e que tem muita gente que não lê o blog, mas pode ler o livro. A Universidade Estadual da Paraíba me fez esse convite para fazer o livro e eu fiz com muita alegria porque sei que o livro chega a lugares onde o blog não chega.

 

1 comentários

Tive o prazer de conviver com o Bráulio Tavares. Tempos atrás ele era o chefe da torcida trezeana e torcia por mim. Hoje os papéis se inverteram e sou eu quem torço por ele. Pessoa inteligentissíma, educada, meiga e sincera, que muito honra a tradição e a linhagem de seu querido pai (saudoso Nilo Tavares). Brilhante a entrevista concedida em que demonstra sua inteligência, seu apêgo e o seu amor ao Nordeste, especialmente, a nossa querida Campina Grande. Que Deus continue iluminando os seus passos. Abraços, Fernando Cangurú.

Deixe uma resposta

*