Entrevista com Dr. Hildeberto Barbosa Filho

Poeta, crítico literário, bacharel em Direito e professor universitário, Hildeberto Barbosa Filho é uma das vozes mais representativas da literatura paraibana e da crítica literária na contemporaneidade. Nascido em Aroreiras, em 9 de outubro de 1954, dedicou-se ao estudo do Direito (Bacharelado e pós-graduação em Direito Penal) e ao amor à palavra (poeta por vocação e estudioso por formação) – Mestre e Doutor em Literatura Brasileira. O autor esteve em Campina Grande, por ocasião do lançamento do seu 15º livro, À Sombra do Soneto e Outros Poemas. Os editores de A Barriguda estiveram presentes na solenidade de lançamento do livro e aproveitaram a oportunidade para conversar com o Hildeberto Barbosa Filho sobre sua experiência profissional, as afinidades entre o Direito e a Literatura, o papel do Direito e da Literatura na formação do cidadão… Confira abaixo nossa entrevista!

Por: Laryssa Almeida
Fábio Rolim
Natally Coelho
Vinicius Leão de Castro

A BARRIGUDA: Com a evolução da convivência do homem em sociedade, foram aparecendo penas cada vez mais severas para determinadas práticas que eram mal vistas entre os componentes do grupo social. Você é Especialista na área penal e Doutor em literatura brasileira, além disso, como poeta você demonstra profundo conhecimento das emoções humanas. Em sua opinião, a interferência do Direito Penal, controlando cada vez mais os cidadãos, evitará a criminalização?

HILDEBERTO: Eu penso que o controle estatal, através de normas e procedimentos jurídicos, nesse campo da criminalidade, é fundamental. Evidentemente, que o estado na obrigação que é, inclusive Constitucional, de proteger o cidadão e de criar as condições básicas para que ele possa transitar livremente, exercitando um direito básico à liberdade e, fundamentalmente, o direito à vida, que é a raiz de todos os demais. Acho que o Estado tem de intervir através de mecanismos e procedimentos de controle, agora, evidentemente, essa intervenção não deve de maneira nenhuma ser excessiva para não tolher os parâmetros mínimos de cidadania calcados na liberdade. Essa é uma questão difícil de ser respondida, mas também difícil de ser resolvida na prática, porque você tem dois direitos ou duas obrigações em conflito: temos o direito e a obrigação do Estado de proteger, de intervir, de dá segurança, de proporcionar as condições mínimas que fundamentem a própria vivencia da liberdade por parte do cidadão; mas, em contraposição, você tem a obrigação do Estado de não invadir a privacidade. Por exemplo, de não tolher as liberdades mínimas. Então, é um desafio para o direito, sobretudo no campo penal. Um desafio que cada vez mais se torna difícil porque a criminalidade aumenta em função de muitos fatores que não caibam ser discutidos aqui, mas essa questão é fundamental e o Estado não pode de maneira nenhuma se omitir, assim como a sociedade também não pode se omitir. O Estado tem sua função, suas obrigações, mas, de certa forma, a cidadania participativa, a sociedade civil organizada como reflexo dessa última tem também a sua função nesse sentido.

A BARRIGUDA: A evolução do Direito ao longo da história da humanidade deixa clara a íntima relação existente entre a ciência jurídica e a Cultura. Qual a influência da sua formação em Direito na construção da sua carreira como poeta, crítico literário, professor e jornalista?

HILDEBERTO: A princípio o Curso de Direito, as ciências jurídico-sociais, foi a minha primeira formação, depois foi que eu fui sistematicamente estudar literatura, através do Curso de Letras. É claro que a minha geração nos bancos da Faculdade de Direito paralelamente à leitura dos tratadistas do direito, dos penalistas, dos civilistas, ainda era uma geração preocupada com as humanidades, os valores humanos. Era muito comum naquela época – coisa que não ocorre muito hoje a não ser de forma excepcional – o estudante de Direito ter uma relação afetiva, até visceral, com a literatura, embora não estudasse aquilo de forma técnica, de forma sistemática, com base em uma teoria. Mas havia, por exemplo, uma paixão pela leitura da coisa literária à época em que eu fiz direito. De certa forma isso é curioso porque o Direito nos traz conteúdos da vida social, da vida política, da vida criminal, e também aproximava e esclarecia as leituras que fazíamos no campo da literatura. A leitura de romance, de poema, de teatro, nos coloca muito diretamente no jogo da vida, digamos na trama da vida, então uma coisa ia se associando a outra. Além do fato de que o Direito como ciência abre um leque, um horizonte expectativo muito grande. É um curso, a meu ver, que dá uma base sociológica e filosófica muito grande, isso terminou, no meu caso, fundamentando um pouco a minha experiência na literatura, porque, como eu tenho um elo com a literatura em duas vertentes, a da criação poética, mas também a da reflexão sobre a criação poética, essa reflexão que eu faço tem uma base teórica filosófica que passou também pela teoria jurídica. Curiosamente, hoje eu tenho trabalhado em certos cursos com as vinculações entre o Direito e a Literatura, inclusive, já existe um programa no Brasil inteiro, se irradiando pelas Faculdades, no Sul, em Pernambuco e, recentemente, na Paraíba, através do Centro de Cultura Zarinha, que realizou um seminário, no qual palestrei sobre Direito e Literatura, focalizando essas interrelações, essas interfaces. Se eu não percebi aquilo à época, nos anos 1970, quando fiz Direito, hoje, curiosamente, na minha maturidade, eu vivo na prática esse liame. Estou voltando agora a ler a literatura também a partir de uma perspectiva jurídica, coisa que eu não fazia porque minha formação literária era toda técnica em Letras – sou Mestre e Doutor em Literatura brasileira, fui professor de teoria –, mas hoje a gente sabe que o paradigma da interdisciplinaridade é muito rico. Logo, não devemos apenas estudar os objetos de estudo focados em uma única perspectiva, é preciso fazer as interconexões. Essa formação jurídica – em que pese o fato de que hoje ela é muito técnica, muito operacional, tanto que se fala em operadores do Direito e não mais advogados, juízes, promotores etc. – para mim foi muito interessante; hoje eu vejo o quanto ela foi rica, inclusive, para me relacionar melhor com o fenômeno literário. Logo, não há nenhuma tensão, como diz o Edgar Morin “os saberes vão se complementando, vão se relacionando”, e isso é o paradigma que nos rege hoje: essa possibilidade de fazer correlações entre os diversos campos porque, de certa forma, as coisas estão interligadas e cabe a nós perceber essa ligação. Há alguma coisa da Literatura muito forte no Direito, e o Direito pode contribuir para você ver melhor a Literatura e vice-versa. A Literatura ensina você a ver melhor o Direito, por isso que o campo está em aberto.

A BARRIGUDA: Você acredita na literatura como um potencial, uma força de transformação social, humana e jurídica?

HILDEBERTO: Acredito não como se ela tivesse essa finalidade, não acho que a finalidade ou mesmo a função da literatura seja essa. Sou daqueles que pensam que a literatura vale por si. O que deve prevalecer na literatura, na verdade, são os valores estéticos, os valores literários. Ninguém pode negar que a literatura como expressão estética, mas também expressão humana e como forma de comunicação humana, traz efeitos muito ricos, muito decisivos, então ela termina operando transformações não só nas individualidades, mas também na sociedade a partir do fato de que a literatura tem esse poder, essa energia de refinar a percepção, enriquecer as possibilidades, estimular a imaginação… Enfim, alargar o horizonte de expectativa do leitor sobre uma realidade. Aquele que lê – não só obras técnicas, obras filosóficas, mas que lê as obras literárias – tende a ter uma relação mais completa e complexa com a realidade. Certos elementos que a realidade oferece só são percebidos através dessa veia literária, então nesse sentido a literatura tem esses efeitos, não só de emocionar, mas de ensinar a compreender o mundo melhor, a desenvolver talvez uma capacidade de tolerância. Eu diria até de rejeição também a determinadas práticas, determinados valores, então, nesse sentido, eu acredito que ela possa contribuir muito. Não vou dizer que para melhorar a sociedade; ela contribui não para uma profilaxia, mas para tornar as pessoas mais humanas, formação de identidade, de caráter, ela nos enriquece com seu olhar sobre a realidade, não como finalidade, mas como efeito que é natural das obras literárias, seja romance, poema, contos. Tenho a impressão de que certas obras em determinados leitores operam modificações radicais, definitivas. Eu me lembro, por exemplo, de uma frase de um escritor argentino, Ernesto Sabato, dizendo que quando leu Dostoievski pela primeira vez nunca mais foi o mesmo. Acredito que isso possa ocorrer com todos nós. A pessoa que não leu, por exemplo, Jorge Luiz Borges, Shakespeare, talvez ao experimentar essas linguagens, essas impressões tão fortes, passe por um processo de modificação fundamental, na formação. Nesse sentido, a literatura tem uma energia muito poderosa, aliás a Arte tem uma energia muito poderosa de você tornar as pessoas mais humanas e fazer com que as pessoas percebam a realidade de forma mais humana. Eu digo que a arte tem a capacidade – não é que ela seja feita para isso – de dar dignidade ao ser humano, mas também de dar dignidade às coisas, humanizar o mundo, digamos assim. Você vê que o poeta humaniza as coisas. Por exemplo, nós temos aqui um chopp (faz referência ao copo de chopp sobre a mesa) e nós temos essa experiência de forma tão banal que perde o sentido, perde a capacidade de ver, de ler a simetria, a integridade, a epifania das coisas… E a arte tem essa capacidade, principalmente na arte literária. É o contraponto arte x sistema econômico, arte x mercado. Vivemos um lado, uma sociedade extremamente racionalizada, instrumentalizada, pragmática e que coloca o lado econômico acima de tudo, então há uma submissão total ao valor de trocas pela quantidade, preço. A arte vem exatamente com valores contrários, um anti-valor dentro de uma estrutura capitalista. Esse anti-valor, que seria a arte, vai nos dar a possibilidade de vivenciar menos esse valor de troca e vivenciar mais o valor de uso, ou seja, desenvolver relações afetivas com as coisas, ou seja, nos ensinar a ver um mundo diferente, a ver que o mundo tem propriedade ou qualidade que normalmente a gente não ver exatamente porque a visão hoje está automatizada, banalizada e a arte faz com que a gente redescubra a beleza das coisas. O poema tem a capacidade de fazer com que o leitor redescubra a beleza que tem por dentro de si por ser humano, a beleza da própria obra e a beleza do mundo, até mesmo a beleza nas coisas que normalmente são tidas como feias ou horríveis. Vou logo me lembrando de Boudelaire, Augusto (dos Anjos), Cesário Verde que “cantaram o horrível”, digamos assim, mas há uma beleza no horrível, há um aspecto sublime naquilo que é mais rasteiro, mais banal. Acho a arte capaz de revelar isso.

A BARRIGUDA: Como você avalia a atual produção literária aqui na Paraíba? Temos poetas como Augusto dos Anjos, romancistas como José Lins que já são consagrados, canonizados… E hoje, incluindo você e tantos outros?

HILDEBERTO: A literatura também pode ser vista como um processo que tem primeiro a sua tradição, tem as suas tensões e sua continuidade. Então, eu diria que a Literatura é como um time de futebol, para ser bem coloquial: todo time de futebol tem suas duas ou três estrelas, mas o time não joga só com as estrelas; tem que ser o conjunto e a Literatura é um conjunto. Enntão, são importantes esses autores que não são estrelas, mas que têm uma função fundamental na ativação do sistema como um processo para que aquilo subsista socialmente, politicamente… É importante a emergência de novos autores. Eu acho que a literatura na Paraíba vem vivendo um momento muito fértil, a gente percebe isso pelo movimento editorial, as publicações, os eventos, inclusive, se deslocando, saindo da Capital e de Campina Grande, que são dois pólos centrais, e indo para o interior mesmo, para as cidades menores. Tenho a impressão de que isso se associa também a uma vida acadêmica que começa a surgir. Estive recentemente em Monteiro fazendo uma palestra, temos Sumé, Cuité, Guarabira são todos pólos universitários e isso faz com que a vida cultural se movimente, tenha uma dinâmica, uma presença e isso ai é um celeiro para que surjam, sobretudo através dos Cursos de Letras, as pessoas que estão mais vinculadas à literatura, que surjam novos autores, sem esquecer o grande legado da cultura popular, literatura popular da Paraíba. Vivemos um momento de renascimento, um momento muito bom em função de todos esses fatores. Agora, é claro, é preciso que haja esse processo para que surja uma ou outra individualidade que realmente vai marcar. Augusto não surgiu sozinho, Ariano não surgiu sozinho, José Lins não surgiu sozinho. Quer dizer, eu não posso querer entender ou compreender um poeta sozinho, ele não está isolado, ele faz parte de uma relação. Essa quantidade vai virar qualidade, é necessário que haja toda essa fermentação para que comece a surgir identidade e já está surgindo. Nós temos, por exemplo, na poesia, uma renovação fabulosa – porque eu poderia pegar, dos anos 1950 para cá, eu estou aqui com o poeta Sérgio Castro Pinto que já é um nome consagrado (faz referência ao seu amigo que se fazia presente na mesa ao lado), mas que já seria até certo ponto canônico, quer dizer já está cristalizado. Claro que ele está produzindo, mas o que importa não é mais ele em si; ele já é um modelo, o que importa é o que está surgindo. Você tem gerações novas, André Ricardo, Astier Basílio, que é um poeta extraordinário e tem um livro que vai ser lançado agora chamado “Final Extinção”. Fiz o prefácio; este livro ganhou o prêmio de “O Correio das Artes”, um prêmio nacional, quer dizer é uma identidade forte, mas que só foi possível porque estava dentro desse fermento, ele não surgiria isolado. Foi importante o Sérgio, foi importante A Garatuja com Bráulio, com José Antônio Assunção, Antônio Morais de Carvalho, foi importante a leitura comigo, com Wellington Pereira, com Lúcio Lins… que são poetas participantes de todo esse movimento, é importante “O Correio das Artes”. É a partir daí que começam a surgir essas identidades que vão se cristalizar, a história é seletiva, como um filtro, mas para que haja o filtro é preciso que haja o insumo, quer dizer haja toda uma produção. Sou daqueles que vêem hoje na Paraíba, e não apenas nela, um movimento muito rico, muito efervescente. A cultura se transformou em um valor, mesmo que as políticas culturais fiquem a dever por parte do Estado, por parte do empresariado, do terceiro setor, mas a cultura é um valor. Quando eu estou em Recife, em um mercado público, vejo Bráulio (Tavares) recitar, vejo poetas populares lá recitando, isso sendo pago pela Prefeitura não só na época de São João, mas no ano todo, então é uma prova de que a cultura está se cristalizando como um valor social e político da sociedade. A contribuição dos poetas é importante, o lançamento do livro, esse movimento dos meninos aqui (referência à revista “Blecaute”), você (referência ao Editor Fábio Rolim), Bruno Gaudêncio e outros ai que estão fazendo a revista, aproveitando essas novas mídias. Tudo isso é um campo, todo um processo de semeação, para que surjam novos valores; do nada é que se faz nada.

A BARRIGUDA: “A Sombra do Soneto e Outros Poemas” está dividido em seções – petrarquianos, shakespearianos – e isso denota uma influência muito forte desses escritores em sua obra. De uma maneira geral, que escritores você destacaria como os que mais lhe influenciaram no seu olhar de poeta e crítico?

HILDEBERTO: Tem algumas figuras – assim, para usar aquela celebre frase de Piquet, o alemão –, todos nós temos as nossas afinidades eletivas, a gente elege uma família de autores com os quais convivemos eternamente. Há alguns poetas que não saem da minha convivência de leitura permanente, primeiro Boudelaire, Dante, Jorge Luiz Borges, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Manoel Bandeira, Jorge de Lima e Augusto dos Anjos são que me parecem estar sempre na estante, na cabeceira, estou sempre lendo e relendo alguma coisa. Na área da crítica, gosto muito de T.S. Eliot, poeta e crítico norte-americano, que também gosto como poeta, mas essencialmente como crítico. Existiriam muitos outros… Para pensar em um nome importante no Brasil, por exemplo, o Antônio Cândido – eu gosto muito – exatamente porque ele sabe fazer como poucos essa ponte entre o social e o estético de forma muito rica e sugestiva. Mas há muitos críticos novos Merquior, mais antigo Augusto Meyer, que eu gosto muito, era um gaúcho e poeta. Há uma infinidade de nomes para serem citados, mas a gente estabelece algumas preferências. O importante é o hábito constante da leitura, tanto da poesia – porque o poeta também precisa ler muita poesia – como o crítico precisa ler muita crítica. Se você for entrevistar, por exemplo, um cara como Caetano Veloso, ele vai dizer que a coisa que mais faz é escutar música. Então, qualquer artista, qualquer escritor, nas suas respectivas áreas, o que mais faz é contactar com o seu material de expressão. No nosso caso é a palavra, então estou sempre lendo, escrevendo, contactando. Isso é fundamental como elemento fertilizador do processo criativo.

 

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Gostaria de obter o contato do professor Hideberto para convidá-lo para o lançamento do livro “Cartas de Amarylis” da autora paraibana Mila Cerqueira que ocorrerá dia 09/09 sexta feira as 18:00 horas no Centro Cultural Joacil de Brito na Praça do Bispo – Centro

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