Entrevista com Geraldo Azevedo

Por:

Laryssa Almeida

Natally Coelho

A BARRIGUDA: Existem algumas iniciativas, a exemplo do projeto da Universidade Federal de Minas Gerais intitulado “Direito é Música”, assim como do programa “Refrão” veiculado pela TV Justiça que buscam ensinar o Direito através da musica. A musica, de certa forma, contribuiu para que alcançássemos o status de Estado Democrático de Direito. Em sua opinião, qual foi a importância da musica na defesa dessa democracia na luta contra a Ditadura?


GERALDO AZEVEDO
: Olha, a cultura de um modo geral, não só a música né? A gente tem que pensar dessa forma porque a cultura sempre foi um polo de resistência e nós passamos pela Ditadura e eu acho que a cultura foi, de certa forma, uma antagônica. Nós éramos fichados, eu fui preso duas vezes como comunista, quem fazia cultura, quem era ligado a cultura, era comunista. E a música tem esse dom de ser dentre a cultura das artes a mais comunicativa de todas, eu sei que o cinema alcança, mas você tem que ir no cinema, a música tá em todo canto, é a arte mais democrática que existe no planeta, pra você ver uma arte plástica você tem que ir pro lugar, a música sem querer, em todo ambiente tem que ter música, você tá assistindo novela tem música lá, a música está presente, então, ela é uma coisa muito insistente naquilo que se defende, é verdade que muitas pessoas usam a música de maneira meio irresponsável, mas eu acho que a gente tem esse critério de, você vê, a minha geração foi importante na resistência contra a ditadura, e ela utilizou-se muito, bem, naquele tempo quando existia a censura, a gente conseguia driblá-la de uma maneira assim meio escondida, vamos dizer assim, nas entrelinhas a gente colocava nossos protestos. Eu fui censurado várias vezes, teve uma canção minha que foi censurada até a ditadura acabar, que foi uma musica que eu fiz com Geraldo Vandré, a Canção da Despedida, foi muito censurada, insistimos, cheguei a colocá-la muitas vezes com nomes diferentes, mas não passava não! Então tinha essa coisa, fomos atingidos demais pela ditadura, o AI5, o Ato Institucional número cinco, que foi aquele ato violento, uma das músicas que mais retratou o AI5 foi a música Pra não Dizer que Não Falei das Flores, ela então se sentiu atingida pela música, é aquela coisa “há soldados armados, armados ou não”, isso tudo atingiu a Ditadura de uma forma muito forte. Então, a música ela toca nas pessoas na maioria das vezes de uma maneira positiva, no caso da Ditadura foi de forma negativa, mas há de convir que essa negatividade deu uma resistência muito grande para que hoje a gente viva numa democracia porque a Ditadura foi um momento muito cruel do Brasil.

A BARRIGUDA: Mesmo vivenciando um Estado Democrático de Direito, sabemos que ainda existe muito a ser feito até alcançarmos uma real democracia, em face disso, porque, na sua opinião, as músicas de protesto tão difundidas na Ditadura não são mais uma realidade tão expressiva?

GERALDO AZEVEDO: Olhe, você me perguntou, mas você responde de certa forma, nesse Estado democrático, a gente já não precisa utilizar esses artifícios, hoje em dia tem que escancarar realmente os nossos direitos, eu acho que a gente não alcançou realmente. Inclusive, a gente está falando nessa coisa da música, o direito autoral, por exemplo, é uma coisa que, é um absurdo a ilegalidade do direito autoral no Brasil! Porque os grandes artistas, os grandes compositores, não recebem o que valem, e hoje tem a internet que se tornou uma coisa meio irresponsável também no meio cultural, porque as pessoas querem absorver das obras sem pagar, se um açougueiro mata um boi, pela carne o sujeito tem que pagar; a gente que faz a música é como se tivesse matando um boi, aquela coisa ali é a nossa obra e a gente se perde. Então a internet e a pirataria também é uma coisa muito absurda no Brasil! A gente tem muita coisa ainda para lutar! Eu estou vendo que a nova ministra da cultura, que é uma artista também, é uma compositora, irmã de Chico Buarque, ela vem com essa mentalidade de mudar e zelar pelos Direitos autorais, mas há de convir que é uma batalha muito difícil porque essa forma irresponsável está cravada no Brasil há muitos anos, ainda com resquício da Ditadura inclusive, eu acho que tem muita coisa pra gente enfrentar. Quer dizer, eu estou falando do Direito da Musica, mas no Direito de um modo geral a gente ainda tem que aprender, inclusive, a se defender. Em alguns países mais adiantados você vê que em qualquer coisinha as pessoas sabem como cobrar os seus direitos, até um abarrotamento de uma bicicleta contra uma pessoa, de repente você vai ganhar uma indenização muito grande. Hoje, no Brasil, um pedreiro cai lá do quinto andar e não sabe reconhecer o direito que tem, não tem ninguém que o apóie e tem sempre a luta de favores entre aquelas pessoas que deveriam estar cuidando do povo, mas infelizmente, a coisa esta sendo assim! Eu acho que a gente tem que batalhar muito! Essa consciência que a gente está tendo aqui agora, a gente tem que ampliar para que se torne uma coisa mais evidente e mais consistente.

A BARRIGUDA: Por todo pais, a exemplo dos projetos desenvolvidos por Carlinhos Brown, crianças e adolescentes, muitas vezes, envolvidos com o mundo das drogas, encontram uma fonte de recuperação e ressocialização através da musica. Diante do sucesso de projetos dessa magnitude, qual a importância da musica para a educação das nossas crianças e adolescentes?
GERALDO AZEVEDO: Olhe, eu vou lhe dizer, é uma coisa muito importante mesmo! Eu acredito que se tiver ênfase no ensino de música eles vão se divertir muito mais do que com as drogas, porque as drogas causam depressão, causam dependência, enquanto que a música traz o brilho das pessoas. Eu vejo projetos fantásticos sendo desenvolvidos no Brasil, como a Escolinha de música de São Caetano, a Escolinha de Música de Nova Olinda no Cariri, o Afro Regue no Rio. São projetos que você vê o quanto desenvolveu e como favoreceu a comunidade. O Afro Regue é um exemplo, em lugares onde há bocas de fumo, são centros de droga, conseguiu conquistar pessoas, as crianças se envolveram com aquele movimento e se se tornarem músicos já é uma história comprovada, a música sempre dá dignidade a pessoa, traz o brilho real das pessoas, enquanto que as drogas e outras coisas mais que eles se envolvem, terminam apagando esse brilho. Eu vejo esses projetos com música, ou escolinha de futebol, essas coisas todas, sempre de forma muito positiva para a comunidade carente e para as crianças que estão aí.

A BARRIGUDA: O Senhor toca desde os 12 anos?

GERALDO AZEVEDO: Eu toco desde os doze anos, mas antes disso eu já convivia com a música, já cantava na escolinha de infância, eu me lembro de cantar já com cinco anos de idade na Escolinha que eu estudava, na alfabetização ali eu já cantava nas festinhas. Minha mãe é uma incentivadora, ela colocava todos os filhos para cantar na Escolinha que ela tinha, e quando eu passei para outras escolas eu sempre fui o animador cultural em todas as escolas que eu estudei.

A BARRIGUDA: Como artista pernambucano que sempre buscou divulgar a musica nordestina, qual a importância dos nossos ritmos para a manutenção da nossa cultura diante da forca que o cenário internacional promove através da globalização?

GERALDO AZEVEDO: Olha, eu vou te dizer uma coisa, o Brasil hoje, pra mim, é o celeiro mais importante da música no mundo pela sua própria diversidade, nossa diversidade musical é muito grande. Eu tenho muito orgulho da minha cidadania, de ser brasileiro, de ser nordestino principalmente. Porque aqui existe uma riqueza muito grande, eu nasci em um Estado e só nesse Estado as variedades de música vem do frevo, maracatu, ciranda, repente, o coco, a embolada, tudo assim, nessa região aqui da Paraíba, Pernambuco tem todas essas coisas que eu estou falando. Então, só nesse estado tem um manancial de diversidade cultural, então a gente só tem que se orgulhar porque esses ritmos são puramente genuínos. Antigamente você chegava fora do Brasil era o samba e a bossa nova, hoje não, o forró já se firmou! O maracatu! Chico Science levou o maracatu; o axé, normalmente se critica as letras do axé, por não valorizarem muito a poesia, mas há de convir que é um ritmo maravilhoso, tanto que mesmo com essas letras sem conteúdo ela absorve um público e uma alegria muito grande. Eu acho que a gente tem muito pano pra manga pra mostrar para o mundo. Os próprios brasileiros, muitas vezes, não dão valor, ficam incentivados por essa cultura de televisão que fica alienando o povo. Mas eu acho que nossa cultura resiste e eu insisto e se a gente insistir mais ela vai ter muito mais consistência.

 

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