Entrevista com Jessier Quirino

Por:
Laryssa Almeida
Natally Coelho
Vinicius Leão
José Garibaldi Porto Junior

A BARRIGUDA: Na sua poesia “Virgulino Lampião, deputado federá” é possível visualizar o descrédito do personagem em relação a alguns “tipos” políticos que ora nos deparamos em nossos telejornais e que são apresentados envolvidos nos mais diversos escândalos. No texto, Virgulin, propõe uma solução drástica para resolução do problema. Na sua opinião, falta penalidades mais rígidas para evitar o atual quadro de corrupção no país?

JESSIER QUIRINO: Acho que falta punição, dentro da lei, e exemplos vindos de cima, partindo de todas as esferas. A penalidade que conhecemos, com raras exceções, infelizmente, limita-se apenas ao constrangimento público diante de uma notícia, (dependendo do interesse político do fato), coisa que é facilmente remediado com poder e fortuna pessoal, força partidária e coluna social. A história de “Virgulino Lampião deputado federá”, na realidade, retrata a fala do povo na casca do destemido capitão que resolveria o problema ao seu modo: “…Político que come uva / Em plena safra de manga / Vai pra lei dos desperdício / Na faca dos meu capanga…” Há um ditado popular que diz: “Político é feito relâmpago, de longe é bonito, mas de perto dá é medo”. É um ditado muito antigo, portanto, o problema não é de hoje.

A BARRIGUDA: Em outra poesia o senhor descreve a história de um matuto analfabeto que assiste a um filme legendado no cinema, e ao retornar, conta aos demais o que viu. Diante desse quadro, gostaríamos de saber se em sua opinião o acesso à educação básica ainda é uma realidade muito distante no nosso estado, principalmente para os adultos que vivem no interior?

JESSIER QUIRINO: A história do “Matuto no cinema” reflete o poder fabulatório do homem simples, que, apesar da limitação intelectual, consegue descrever toda emoção do tal filme legendado. Soube depois, por um amigo meu, que fato igual foi vivenciado por ele próprio na sua infância em Mossoró e em troca de paga. Segundo ele, o filme de Django – “Por um punhado de dólares” foi contado seis vezes. Com isto, mostramos o instinto de sobrevivência do matuto diante das dificuldades e não são poucas. Quanto à educação, o acesso à tecnologia tem ajudado a diminuir os obstáculos, mas continua sendo uma realidade dura, principalmente para os adultos. Acho, no entanto, que seria importante analisar a questão na ótica da qualidade do ensino, que, hoje, além de deficitário, se contamina com a praga deseducadora de muitos veículos de comunicação. Vi, por exemplo, aqui em Itabaiana, nos ensaios do desfile cívico escolar do dia 7 de Setembro, uma banda de fanfarra tocando solenemente com tambores e metais a música: “Papai tá dodói / Mamãe dadá beijim que passa”, (o “dodói” é puro dengo de casal), e a canção é sucesso de rádio, de dancing e de cachaça. Acho que deveria ser evitado. No carnaval nem se fala.

A BARRIGUDA: Sua poesia, além de divertir, sempre exalta algumas realidades que precisam ser modificadas no Brasil, como o descaso com a saúde pública, o analfabetismo, a corrupção, a compra e venda de votos etc. Em sua opinião, a arte além de emocionar, funciona como um meio de cobrar das autoridades os nossos direitos?

JESSIER QUIRINO: Acho que funciona sim e bem. Tanto, que, nos regimes autoritários, os artistas das mais variadas vertentes, foram e ainda são perseguidos e até presos. Mesmo, em alguns casos, contendo um viés debochativo e hilariante, a obra mantém acesa essa força de pedir reflexão. Com suas variantes e sutilezas, nós, de arte em punho, temos, talvez, um dos mais legítimos meios de denuncia e de cobrança. Podemos emocionar, mostrar nossas miudezas e, por que não, botar um galho de urtiga nos mal feitos nacionais e desnacionais. Cito, por exemplo, o poema abaixo publicado no livro Bandeira Nordestina:

DE DOMINGO AGORA A OITO

De domingo agora a oito
É dia de eleição
É dia do pleiteante
– Do fundo do coração –
Perguntar: o que desejas?
A quem tem de louça um caco
De terra só tem nas unhas
E mora de inquilino
Numa casa de botão.

De domingo agora a oito
É dia arreganha-cofre
É de ajudar os que sofrem
É dia do estende-a-mão
De se abraçar com farrapos
De mastigar vinte sapos
E não ter indigestão.

É dia de expor na fala
Que bem conhece o riscado:
– Ninguém come mais insosso
Ninguém mais bebe salgado!

De domingo agora a oito
Não relampeja nem chove
É dia que nos comove
É o grande dia D.

Agora o dia fu-D
Vai ser de domingo a nove.

A BARRIGUDA: O senhor, natural de Campina Grande, com residência fixa em Itabaiana, ambas cidades localizadas no interior da Paraíba, costuma exaltar em seus textos a rotina interiorana e se intitula matuto por convicção. Qual a importância de difundir a cultura matuta?

JESSIER QUIRINO:
Quando falo “matuto por convicção”, é, na realidade, uma espécie de homenagem a essas personalidades de pé-no-chão e uma forma de emoldurar minha poesia. O mestre Zé Marculino dizia que a poesia está em todo canto e cabe ao poeta enxergar. Campina Grande, com suas rádios e feira, sempre foi um ponto de convergência de tudo quanto é nação de matuto e isto talvez tenha sido o ponto de partida. Comecei difundindo esse universo com um texto meio banda-voou, meio moleque-de-rua, mas sempre de forma respeitosa, com uma surpresinha no dizer e, às vezes, com voejos contemporâneos. De repente, me vi sendo reconhecido como mais um representante das tradições nordestinas e toquei em frente. Hoje, me sinto com uma responsabilidade redobrada, mas orgulhoso da causa abraçada. No livro Berro Novo – Edições Bagaço, faço uma descrição do aboio do vaqueiro que mostra da casa ao grito:

VERSOS DO LÁ FORA

A casa era tão pequena
Que nem sequer tinha lá dentro
Tudo vinha do lá fora.
As portas eram caducas
Paus cansados e rachados.
Na janela, um galo esperto
Um emoldurado cantante
Avisando ao viajante:
“– Nessa casa aqui tem gente!”

Vinha gente dos lá fora
Cantarolando, bradando
Sem nenhum palavrear
Uns versos longos sentidos
Sonorizando vogais:
Ôhhh! Ôhhh! Ôhhh!
Êhhh! Êhhh! Êhh! Êaaah!

Depois um solene “boi!”
Êh, boi! Êhhhhh, boi!
No fim assinando:
Ahhhhhhhhh!!!

 

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