Entrevista com Luis Kiari

LUIS KIARI se envolveu com a música ainda na infância na cidade de Campina Grande (PB) ouvindo o pai cantarolando versos, enquanto o acompanhava no trabalho rural. Hoje o artista, que partiu de sua terra natal aos 19 anos, vem consolidando sua carreira na música popular brasileira e concedeu entrevista a nossa equipe.

A Barriguda – Em algumas declarações você já afirmou que se mudou para o Rio de Janeiro aos 19 anos para estudar música e tentar buscar espaço no meio artístico haja vista ser mais fácil do que buscar esse potencial permanecendo em Campina Grande.  Passados esses anos, com o alcance que a internet e outros meios de comunicação proporcionam atualmente, sair do Nordeste a fim de alcançar uma maior notoriedade ainda é a melhor opção para um artista local? Em sua opinião, mais incentivo à cultura serviria de amparo para que os artistas permanecessem em sua cidade natal?

Luis Kiari – Todo país tem os seus polos e o sudeste é por diversos motivos, o nosso maior polo cultural onde a indústria e os meios de comunicação se encontram. Vir para cá não é a única forma de alcançar maior notoriedade nacional, mas ainda é a forma mais eficiente.  Sim, se houvesse uma descentralização do poder, sendo estimulada pelo apoio financeiro de cada estado à sua cultura, dando maior autonomia ao artista, dificilmente, ele teria que deixar sua terra por uma obrigação com a sua arte, sairia talvez, porque o artista ama a liberdade de ser em todo lugar.

A Barriguda – Já que citamos a internet, você está participando de um projeto crowdfunding, ou seja, um sistema de financiamento colaborativo/coletivo, alternativo ao sistema de financiamento bancário. Fale um pouco acerca desse projeto.

Luis Kiari – O sistema de financiamento coletivo é apenas mais uma forma de viabilizar a produção artística. Hoje, com a força da internet, o poder da indústria fonográfica se diluiu, dando não só ao artista, mas também ao público o poder de escolha. O artista tem maior controle sobre como e o que produzir para o seu público, e esse, por sua vez, a decisão do que escutar, e mais ainda, no caso do financiamento coletivo, o que apoiar para que amanhã ele possa ouvir em seus smartphones, Pads e seja lá o que vier. Sem intermediários, sem seletividade de quem decida o que é melhor para ele, sem nada a não ser o seu próprio crivo. No meu projeto, por exemplo, o público pode escolher desde ter um CD com seu nome no encarte como co-produtor, até um show de 1h de duração em sua “varanda”, tudo isso organizado em cotas e contra-partidas. Quem quiser saber mais e apoiar o projeto, é só entrar no link: catarse.me/luiskiari

A Barriguda – Em se tratando de projetos, há alguns anos você iniciou um projeto infantil, com canções voltadas para este público específico. Como músico, qual a sua opinião acerca do poder da música na promoção da educação infantil e ao acesso a cultura?

Luis Kiari – A música, em minha opinião, é a forma mais rápida, dentre todas as artes, de tocar alguém. A abstração dos sons gera várias sensações para cada receptor, ligando intimamente cada ser consigo mesmo, através do sentir. Ao lançar músicas aos ouvidos das crianças, nós os estimulamos sonoramente a tocar seu primeiro e mais puro instinto, a intuição. Esse processo de estimulação do sentir abre portas internas e externas para novas figuras e significados, e assim uma maior facilidade de absorção e compreensão de toda linguagem que a cultura possa trazer.

A Barriguda – Você tem irmãos que são deficientes visuais, inclusive um deles obteve sucesso nas paraolimpíadas. Em sua opinião e em face da sua experiência familiar, falta incentivo para que outras famílias brasileiras, que precisam lidar com a mesma dificuldade, consigam ter acesso à educação, por exemplo, ou  mesmo aos esportes e à música?

Luis Kiari – Se faltam incentivos para cultura, educação e esporte para quem não tem deficiência alguma, imagine pra quem tem? Meus irmãos estudaram, se não me engano, até a 5ª série no instituto dos cegos de Campina Grande, e lá eles tiveram pouquíssimo contato com música ou esporte, e a educação era muito precária. Foram estudar, com toda dificuldade do mundo, na capital. Meu pai era agricultor e além dos 3 filhos cegos, tinha mais 4 em casa para alimentar, educar, etc. As companhias de ônibus demoraram anos para dar passe livre para os deficientes. Primeiro eles conseguiram o passe municipal, que já foi um alívio e depois, tempos depois, veio o passe interestadual, e a partir dai, eles puderam vir com mais frequência para casa, isso tudo sem falar na falta de acessibilidade. O fato de retornarem mais vezes para casa, junto com a estrutura cultural que o novo instituto da capital dava, possibilitou-me aprender com eles a tocar violão e a cantar a arte que hoje me constrói e me salva no risco que é viver.

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