Tessituras da Modernidade: entre o público e privado

EUFRÁSIO, Cíntia L. B. de Araújo e EUFRÁSIO, Marcelo A. Pereira. Tessituras da Modernidade: entre o público e privado. Curitiba: Protexto, 2011, 156p.

Cíntia Letícia Bittar de Araújo Eufrásio é graduada em História pela Universidade Estadual Vale do Acaraú e Pós-Graduada em História do Brasil e da Paraíba pelas Faculdades Integradas de Patos.

 Marcelo Alves Pereira Eufrásio possui graduação em História pela Universidade Estadual da Paraíba e em Direito pela Universidade Estadual da Paraíba, especialização em História da Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba e mestrado em Ciências da Sociedade pela Universidade Estadual da Paraíba. Atualmente, é doutorando em Ciências Sociais na Universidade Federal de Campina Grande.

O livro, elaborado por ambos os autores, traz à baila uma discussão dicotômica entre a face pública e a face privada de vários conceitos como as instituições, os espaços físicos, os interesses sociais, as esferas políticas, os compromissos e atribuições ocupacionais entre os gêneros, etcétera. Numa elucidação orientada pela contextualização histórica e permeada pela referência a outros autores, a obra em tela é fragmentada em duas partes, introduzidas por uma apresentação que reflete sobre o fenômeno da modernidade e toda a construção deste, evidenciando que o estudo focado no âmbito da modernidade abre caminho para visualizar-se o destino das instituições sociais.

A parte I, escrita pela pesquisadora Cíntia Eufrásio, contém três capítulos que objetivam examinar, segundo a narrativa histórica, a construção da identidade do gênero feminino, os papéis desempenhados pela mulher nas diferentes estruturações da sociedade e os aspectos subjetivos que repletaram o desempenho feminino nessas estruturações ao longo do tempo.

 A estudiosa introduz sua exposição informando que as sociedades primitivas eram matriarcais em virtude da exogamia, de modo que a aglutinação social era feita em torno dos vínculos maternos. No entanto, após a sedentarização das comunidades, os homens passaram a impor seu domínio, subjugando as mulheres e levando-as à condição de incapazes, ao mantê-las sob sua permanente tutela.

Nesse viés, segundo a autora, as instituições sociais foram edificadas segundo o arcabouço que reforçava a restrição feminina à esfera privada. Desta forma, as mulheres passaram os séculos confinadas no ambiente domiciliar e presas apenas aos vínculos sociais da família. Não obstante, elas foram, gradativamente, conquistando espaço nos ambientes públicos e conseguiram sua emancipação social mostrando-se como sujeitos ativos na construção da História.

Ao final da primeira parte, Eufrasio (2011) demonstra que, hodiernamente, as mulheres ocupam o mercado de trabalho e competem com os homens nas demais tarefas públicas. Ainda encarregadas dos ofícios domésticos, essas sujeitas têm uma jornada dupla de trabalho, sendo um turno na esfera pública remunerada e o outro na esfera privada, com a casa e filhos. A autora conclui seu trabalho lamentando que, apesar de todos os avanços femininos e das mudanças nas relações de gêneros, modernamente o espaço público ainda é dominado pelo gênero masculino.

Na segunda parte da obra, redigida por Marcelo Eufrásio, as explicações orbitam entre as facetas da política e suas conotações de público e de privado. Tais elucidações tangem os conceitos de cidadania, do papel do Estado e dos cidadãos, dos interesses que se articulam nas relações intersubjetivas da sociedade e a operação do Direito, que garante a soberania das sociedades democráticas.

Focando-se na moderna sociedade civil, o autor inicia seu discurso descrevendo o contratualismo de Jean Jacques Rousseau, que entende a cidadania como a realização da vontade geral do povo.  Para Eufrasio (2011) a noção desta categoria traduz-se em um Estado de bases democráticas cujo dever é assegurar a todos os cidadãos a convivência em igualdade jurídica. Posteriormente, a pesquisa estabelece o diálogo entre as teorias de Karl Marx e Antonio Gramsci atinentes ao exercício da cidadania no Estado democrático e ao convívio entre as classes sociais existentes.

Na mesma diapasão, o livro menciona outros dois estudiosos que embasam uma segunda bifurcação teórica a respeito do exercício legítimo da democracia: Hannah Arendt e Jürgen Habermas. Com tênues diferenças em seus juízos, estes teóricos definem a democracia como uma prática em constante edificação, amalgamada nas convicções, práxis e diálogos individuais, atrelados à dinâmica do Estado, cujo papel é equilibrar as diferenças de interesses privados existentes na complexa teia social.

Em fase derradeira, o pesquisador aborda a temática da inserção de jovens brasileiros com pouca ou nenhuma qualificação para o trabalho formal. Almejando garantir o direito social ao trabalho, o programa governamental, Projovem, foi criado para equilibrar a situação deficitária dessa mão-de-obra. No entanto, o autor verifica, na conclusão de seu estudo, que esta iniciativa pública apenas esboça a garantia à educação fundamental, mas não qualifica nem encaminha os jovens ao trabalho digno.

Avaliando as partes do livro de forma independente, a primeira aborda, meritoriamente, a temática do desempenho das funções femininas modernas. Por meio do padrão formal e simples da linguagem, trata-se de um assunto interessante, impregnado de subjetividade e que, lamentavelmente, é pouco discutido nos âmbitos educacionais em geral. Pela utilização de uma lógica bem sistematizada e concatenação coerente de suas ilustrativas explanações, a parte I do livro pode ser apreciada por todas as pessoas que se interessarem pela temática em foco.

A parte II da obra, em exame, merece gabo por sua boa vontade em propor e esclarecer aos leitores a importância do diálogo e da prática como ferramentas capazes de equilibrar as diferenças sociais existentes, muito embora, a linguagem estéril e demasiadamente prolixa torne o processo de leitura fatigante. Outrossim, o uso abusivo de conceitos polissêmicos, dissociados de exemplos explicativos, tornam as divagações presentes nesta parte do livro confusas.

Percebe-se que autor parece ter se perdido na complexidade de sua redação, repetindo varias vezes a mesma idéia. O ápice desta redundância é atingido nas páginas 120 e 122, nas quais há exatamente o mesmo trecho, fazendo com que o leitor tenha uma vertiginosa sensação de deja vu. Não suficiente, o livro precisa passar nova e mais rigorosa revisão, pois se encontra eivado de erros ortográficos, sintáticos e de concordância.

Ao perceber o fato exposto acima, o leitor verifica que o objetivo do autor foi menos transmitir um conteúdo de forma legível e atraente do que redigir sua obra em rebuscado vernáculo. Sendo assim, o autor quis expressar-se com o preciosismo literário machadiano, mas seu discurso politicamente esquerdista, claramente influenciado por Karl Marx e pesarosamente, extenso fê-lo assemelhar-se a Fidel Castro que, em 1960, proferiu o discurso mais longo da história da Organização das Nações Unidas (ONU).

Diferentemente da primeira sessão, a segunda exige conhecimentos prévios do interlocutor para que este entenda a mensagem transmitida pelo autor. O contratualismo do filósofo Rousseau e, especialmente, as teorias do filósofo Karl Marx como a mais-valia, a alienação do proletariado e o materialismo histórico e dialético, por exemplo, são mencionados nos capítulos sem qualquer definição preliminar.

Conclusivamente, é uma tarefa delicada definir a área de conhecimento a qual a obra em foco se adequa, Sendo ela, portanto, indicada às pessoas que dominam os conceitos supracitados e disponham de tempo e paciência para enfrentar, voluntariamente, o desafio de compreender as complexas discorrências que a maior parte do livro traz, sem, contudo, deixar-se dominar pelo anseio de desistir do processo de leitura.

Autora:

Tess Carvalho Mendes

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