Hamilton

A primeira vez foi logo após o café, no domingo de manhã. Como sempre, foi o primeiro do grupo a acordar, às oito horas, já estava acabando o desjejum. Ao subir para o quarto, um tremor no lado esquerdo, como se fosse um arrepio de frio, e uma dormência no braço. Tonteou. Entrou no quarto, mas não acordou Bernardo, lateral esquerdo, seu colega de concentração. Sentou-se na cama e fechou os olhos, esperando o mal-estar passar. Creditou à ânsia que estava sentindo. Na verdade, não lembrava a última vez em que estivera tão ansioso antes de uma partida. Estava com trinta e cinco anos, tinha treze de Europa, três copas do mundo, e ainda cogitavam seu nome para a próxima, no ano seguinte. E não lembrava a última vez em que estivera tão nervoso. Era apenas a final do campeonato regional, o segundo e decisivo jogo. Mas, era contra “eles”. E ele não tinha podido jogar a primeira partida, por suspensão pelo terceiro cartão amarelo. A derrota de dois a um tinha sido injusta. Mas, hoje, o jogo era no nosso estádio, que estaria totalmente vermelho, exceto por aquele mísero cantinho azul. Como queria que seu pai pudesse assistir àquela partida… Seu pai era a segunda coisa que mais amava na vida. A terceira era o vermelho. A primeira, o futebol.

Desde criança, ia aos jogos do vermelho com seu pai. Era o melhor dia da semana. Futebol com a turma pela manhã, no campinho careca do bairro, churrasco ao meio-dia e estádio à tarde. Só não ia, se o jogo fosse contra os azuis no campo deles. Seu pai dizia que não era porco, para ir ao chiqueiro. Dizia isso comendo uma costela gorda, lambuzando o vasto bigode. Ele adorava aquilo. Adorava tudo o que o pai fazia. Só não gostava, quando ele não aceitava os convites, para que fosse treinar nos times da cidade.

– Só quando acabar o ginásio – dizia ele.

Não deu tempo. Seu pai morreu no dia de seu 13º aniversário. Coração. Fulminante. Pela primeira vez, chorou.

Seu tio, irmão de sua mãe, levou-o, para fazer um teste. Nos azuis. Disse que só levaria, se fosse nos azuis. Ele foi. Queria jogar, sempre quis jogar, não importava onde. Sabia que, se seu pai estivesse vivo, isso jamais aconteceria. Um filho nos azuis? Preferiria a morte. No teste, com o time sub-15, após dois toques na bola — o primeiro, um gol de bate-pronto, e o segundo, um passe de calcanhar de mais de quinze metros — o treinador parou o treino, chamou o menino de lado e perguntou seu nome:

– Hamilton Filho – respondeu, engrossando a voz, escorregando nos falsetes da adolescência recém-chegada.

O treinador, rindo, perguntou:

– E qual a tua idade, Hamilton Filho? – imitando o jeito de falar do menino.

– Quatorze, mas já, já faço quinze, e minha mãe deixa eu viajar, e eu jogo em qualquer posição do lado esquerdo – perdendo o fôlego, ao despejar as palavras.

Foi campeão brasileiro sub-17 naquele mesmo ano. Nunca chegou a jogar no sub-15, onde sua qualidade o fazia destoar do resto dos pequenos jogadores. Com dezoito anos, estreou nos titulares. Dois gols e o melhor em campo para todas as estações de rádio que cobriram o espetáculo. Jogou quatro anos no azul, com quatro títulos regionais, dois brasileiros e um vice-campeonato continental. Foram vários jogos contra os vermelhos. Odiava os dias que antecediam esses jogos, ficava triste, mal-humorado. Mas, na hora da partida, tudo era esquecido. Amava jogar futebol, mesmo que fosse contra seu clube do coração. Marcou vários gols, alguns antológicos. À noite, porém, era assombrado por pesadelos horríveis. Sonhava que estava fazendo o gol, o mesmo que fizera na partida, e, quando olhava para a arquibancada, via seu pai, de costas, caminhando em direção à saída do estádio. Acordava suado, ofegante, às vezes, com remorso.

O dia mais feliz da sua vida foi o da sua venda para o Benfica, de Portugal. A primeira coisa em que pensou, quando assinou o contrato, foi no fim dos pesadelos. Jogou dois anos no Benfica, três na Juventus, da Itália, e oito no Real Madrid, da Espanha. A Europa mudou sua vida, deu-lhe cultura e, principalmente, dinheiro, muito dinheiro, que ele soube aplicar muito bem. Com trinta e cinco anos, final de contrato com o Real, patrimônio suficiente para a sua terceira geração, achou que hora de realizar um sonho. Assim, foi apresentado, no início daquele ano, como o mais novo reforço dos vermelhos.

Após o almoço, voltou a sentir arrepios e tonturas. Resolveu não comentar nada com os médicos. Não gostava do jeito que o tratavam, cheio de mesuras e tentativas de privilégios. Não se achava mais do que os outros jogadores. No caminho para o estádio, no ônibus da equipe, via os torcedores caminhando em direção ao estádio. Percebeu, quase por acaso, que procurava achar, entre os torcedores, uma dupla que lembrasse a ele e seu pai, vinte anos atrás. Por um momento, esqueceu a ansiedade e voltou no tempo, lembrando-se dos grandes domingos, em que não precisava do dinheiro que tinha agora, apenas curtindo as três coisas que mais amava: o vermelho, seu pai e o futebol. Falta apenas ele, pensou.

No vestiário, o aquecimento estava mais pesado que o normal. As pernas estavam bambeando, a cabeça estava longe, e o peito estava apertado. O braço, dormente. Enlouqueceu, quando entrou em campo. Não acreditava que estava jogando, de vermelho, contra os azuis. E, no seu estádio, naquelas arquibancadas a que ele ia todos os domingos. Chorou, pela segunda vez.

À medida que o jogo transcorria, a sua ansiedade aumentava. Não entendia aquela dor no peito e a falta de força nas pernas. Ele estava muito bem fisicamente. Era um dos melhores atletas nos testes físicos. O lado esquerdo do corpo parecia que não respondia aos comandos do seu cérebro. Cérebro. Era como o chamavam no Real Madrid, “el cerebro”, pela sua capacidade de antever o jogo.

Quarenta minutos do segundo tempo, e ainda zero a zero.

Aos quarenta e três minutos, Bernardo rouba uma bola na lateral do campo. No mesmo instante, Hamilton sente a dor no peito. Antevendo a jogada, no único momento de distração de seu marcador, corre para a área. Não sente as pernas, não sabe como está correndo, mas vê quando Bernardo estica o passe longo, alto, que cai exatamente em seu peito. Dor. Hamilton percebe que está caindo pela força da batida da bola em seu peito, mas também percebe a bola, que, mansamente, vem caindo ao seu lado. Era o resquício da habilidade que, ao final, ainda lhe era companheira. Em um esforço final, projeta a perna esquerda para o alto e, com o peito do pé, bate forte para o fundo da rede. Gol. Gol. Gritos. Loucura. A dor em seu peito é insuportável, mas Hamilton sorri. Tenta levantar, mas não consegue. Suas pernas não obedecem. A dor aumenta. Ele se entrega. No chão, no seu gramado, no seu estádio, com a sua torcida, ele se entrega.

Antes de fechar os olhos, ele olha para a arquibancada e vê, aos berros, pulando, ao lado de um menino, um velho bigodudo às lágrimas, mandando-lhe beijos.

Tudo ficou escuro.

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