O “Poeta” de Platão e o “Gênio” de Kant

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Nessas últimas semanas, circulou nas redes sociais um texto de Charles Kiefer (ver imagem ao lado), onde o embate “Arte vs. Ciência” é trazido à reflexão. Na oportunidade, lembrei-me de uma breve digressão tangente ao tema que ousei esboçar num passado quase remoto; rascunho esse que, igualmente, “ouso” publicizar.

 

 

Para o filósofo Platão, discípulo de Aristóteles, a verdadeira beleza se relacionava com a arte só excepcionalmente e apenas a chamada “inteligência pura” seria capaz de a ela contemplar. Para ele, a poesia, dentre as demais manifestações, hoje tidas como artísticas, era a que possuía maior afinidade com essa “inteligência” e os seus criadores – os poetas – possuíam uma posição privilegiada, estando acima dos artesãos, pintores e escultores, e assemelhando-se aos augures, isto é, homens aos quais se atribuíam faculdades divinatórias. Segundo seu pensamento, os chamados artífices, ou seja, aqueles últimos (artesãos, pintores e escultores), apenas imitavam as aparências das coisas e da natureza que, por sua vez, já era uma “imitação” do que Platão definiu como sendo o “Mundo das Ideias” que, segundo sua teoria, configurava-se na “beleza suprema”, ideal e superior à “beleza artística”. Desta forma, os poetas e os artistas eram dois entes distintos, cujos resultados de suas produções possuíam valores diferentes, e onde os músicos, numa visão macro, possuíam similaridade àqueles primeiros. Essa “imitação” era chamada pelos filósofos gregos de mimese.

Para Platão, só havia dois atos miméticos fundamentais: a imitação realizada primeiramente por Demiurgo e a chamada imitação moral. Em sua concepção, o pintor e o escultor imitavam as coisas já copiadas da “realidade perfeita” por Demiurgo, daí dizer-se que seus resultados seriam um “cópia da cópia”.

Bem mais tarde na história, Kant gera os impulsos que resultaram no progresso da estética, admitindo, através da sua Crítica do Juízo, três modalidades de experiência: a cognoscitiva, a prática e a estética, cujo objeto é o belo. Para ele, assim como os poetas de Platão, os gênios de sua época, indivíduos de extraordinário potencial intelectual e de elevada capacidade mental criadora, eram seres humanos especiais, pois tinham o poder da razão.

Assim, como analogia existente entre o “poeta” de Platão e o “gênio” de Kant – qual a hodierna discussão entre “Arte vs. Ciência” – podemos ver exatamente o caráter de peculiaridade ou singularidade que estes indivíduos tinham em seus respectivos tempos e culturas, designando-os seres humanos mais elevados – distantes temporalmente contudo simbioticamente unidos no nosso contexto, como exortado por Kiefer.

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