Poesias (I) do Prof. Paulo Ferreira da Cunha

 

 

 

Prof. Paulo Ferreira da Cunha inicia sua coluna na  “A Barriguda” com poesias que nos falam sobre valores, vontade estudar, insensatez, verdades, mentiras, felicidade, dentre tantos outros temas que estão nas profundas palavras que se seguem:

 

VII ANDAMENTOS

PARA UM “ANDAR DEREITO”

 

Pera se ter forte em todas estas maneiras de cavalgar he todavya pryncipalmente necessario saber andar dereito (…)

Dom Duarte, Leal Conselheiro, VIII.

 

 

I.SENHORITOS, SEITAS E MODAS

Prefiro um ignorante puro

Que sabe só o que pensa

(Ou nem isso sabe

Até porque pouco pensará)

a um senhorito petulante

que leu ou ouviu umas coisitas

e muito mal as digeriu.

E com isso julga ter descoberto a pólvora

– Todos se devendo curvar à sua passagem –

Quando, na verdade,

Ele apenas plagia uma banalidade

De um meteoro da moda

Certamente um pouco mais inteligente

Com mais e melhor imprensa

E agora com séquito

De epígonos.

Pobre cultura e mais coisas…

Feitas de modismo

E de seitas

E vaidades…

Curioso que nesta situação

Quem poderia ser honesto trabalhador

Na seara do saber

Começa a aspirar a ser meteoro

E assim se torna senhorito.

Felizmente há quem resista.

 

28 de março de 2016

 

II.RECEITA PARA UM MONSTRO

Egotismo extremo,

Pelos demais, desprezo

Despreparo agudo

Petulância na razão direta da ignorância

Bastante petulância

Ar babaca ou sisudo.

E não é tudo…

 

III.GRAMÁTICA

Consoante os casos
As vogais
que te são caras
Mudam.
Conforme a raiz
o matiz
que te é familiar
condiz.
Dependendo do juízo
E de algum siso
Assim acredita
No que a grande voz
dita
Ou não.
A tua razão
é em boa parte
Fruto de tempo e arte.
O curioso
é que não vês
o que te ata os pés.

28 de março de 2016

 

IV.NOMINALISMOS
Podes mudar as palavras

Rodá-las a bel-prazer

Mas essas coisas que lavras

Essas são mesmo a valer.

 

Podes contorcer a alma

O espírito ocultar

Mas um dia ao romper d’alva

Verdade vai-te encontrar.

 

Interesse só te comanda

o que afirmas com denodo

Mas sabes bem que é engodo.

 

Olha lá que esse teu modo

Que a vil mentira tresanda.

Um dia ainda desanda.

 

28 de março de 2016

 

V.DIA 1 de ABRIL

Em abril, dia primeiro,

as mentiras eram dantes

divertidas, evidentes,

e claras pr´o mundo inteiro.

Notícias d´hoje releio:

Não distingo o verdadeiro,

Não são em nada dif’rentes…

Do real, onde o esteio?

Meu problema é malsão:

notícias bem verdadeiras

se equiparam a asneiras,

a mentiras e besteiras.

Porque sumiu o padrão?

 

VI.RELATÓRIO DA INSENSATEZ

Aturdidos por slogans simples, contundentes

Que com beijos de ressurreição acordam

Os fantasmas que dormiam pesado sono

Até os poucos guardas de castelos e templos,

Treinados nos rigores e na retidão,

Resvalam para o pensar sem pensar da turba.

 

Quando se impunha que fossem diferentes,

E com denodo indicassem um caminho certo,

Deixam finalmente suas paixões abafadas

Afogar a Razão que deveria presidir

Aos seus atos, de que tudo depende na Cidade.

 

Onde estão os corações sem mancha?

Onde estão os destinos nobres?

Onde estão os nervos impassíveis?

Onde estão as Cabeças de ideias retas e claras?

 

Quando tudo se mistura,

Numa amálgama de ódios e mesquinhos sentimentos,

Quando o interesse, mesmo assim mal entendido,

Anima uma fúria que parece alimentada

Por pulsões de morte,

Será que uma segunda linha de inteligência

de prudência e de força d’alma

Se esconderá ainda algures

Como reserva de bom senso

E poderá emergir, ainda nos salvando?
Se não, tudo recomeçará de novo,

E sem fim se repetirão estórias velhas

E dores, que por serem conhecidas,

Não serão menos dolorosas.

 

Já doem por antecipação

Aos que as antecipam.

 

Dói ver a insensatez sem freio,

O ódio sem limite,

E como tudo poderia ser diferente!

 

3 de abril de 2016

 

VII. DAS FELICIDADES

Felizes os que cultivam o silêncio, porque ganharão a Harmonia.

Felizes os que pensam por si, porque encontrarão Sabedoria.

Felizes os que avaliam com ceticismo, porque alcançarão a máxima Verdade no mundo da ilusão.

Felizes os que estudam só pela sede do saber, porque serão saciados nas fontes não inquinadas.

Felizes os que laboram alheios às querelas do Mundo porque caminharão na senda da Paz.

Felizes os que combatem o bom combate, porque a sua Força irradiará Justiça.

Felizes os pacientes e os tolerantes, cuja quotidiana serenidade é exemplo e escudo.

Felizes os que olham sinceramente nos olhos e falam palavras de Verdade, porque deles é o Reino..

Felizes os que espalham a Verdade, a Beleza e o Bem, sem nada esperar em troca, porque neles mora a nossa Esperança.

 

27 de março de 2016, Páscoa

 

Paulo Ferreira da Cunha

 

 

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