QUE SERÁ DO FUTURO?

Yulgan Tenno

 

Como primeira contribuição textual à Revista A Barriguda – que inaugura nossa coluna–  gostaríamos de trazer algumas reflexões filosóficas sobre o futuro. Não pretendo aqui estabelecer verdades ou prenúnciosda direção da vida humana, mas apenas chamar a atenção para a relação entre futuro, prosperidade e medo.

Abordo da visão atual de mundo, a sociedadetende a conceber o futuro com receio dos eventos extraordinários e catastróficos que podem ocorrer. A pessoa do século XXI pensa no que está por vir como um verdadeiro caos apocalíptico, vislumbrando crises ambientais devastadoras, terrorismo, guerras de consequências mundiais e, até mesmo, alienígenas nômades e colonizadores tendentes a usurpar nosso lugar no planeta, e.g.

Prova maior dessa conjuntura está na cultura pop. Reiteradamente, os sucessos do cinema trazem o conceito de futuro como sinônimo de fim, de “tempos difíceis”, ou de mesmice. Aqui nos referimos a filmes e séries televisivas, como“Armageddon”,Independece Day”,Matrix”, “Terminator”, “I amLegend”, “The Day AfterTomorrow”, “Dawn ofthePlanetofthe Apes”,Ex-Machina”, “Black Mirror”, “The Book of Eli”, “2012”, “Interstelar”, todos ensaiando o futuro do mundo por diversos prismas, como a invasão alienígena, a revolução robótica, epidemias, a crise ambiental, asteroides em rota de colisão com a terra. Ameaças que foram ou não dissipadas.

São escassas as produções que tentam mostrar o amanhã distante com otimismo.

Ocorre que o planeta terra convive com problemas que aparentam ser insolucionáveis, apesar dos esforços, e, por isso, assustam. Como se pode facilmente observar, todos dizem respeito a crises relativas aos direitos humanos. O meio ambiente, a fome, a pobreza, a doença, a insegurança, o ódio, a intolerância, a guerra, colocam em xeque o futuro da humanidade e são problemas antigos, reais e persistentes que mexem com o psique dos indivíduos.

Sendo assim, como conceber o futuro de prosperidade se o próprio equilíbrio natural e humano se encontram ameaçados diariamente?

Podemos afirmar, com tranquilidade, que a Segunda Guerra mundial foi o marco histórico mais significativo do século XX, resultando na mudança de paradigmas sobre a função do homem no mundo. O ser humano percebeu que ele mesmo representa uma ameaça a si, aos seus semelhantes e ao próprio planeta Terra, tendo a personalidade mortífera e degradante. O Darwinismo Social motivou as ideias de eugenia (termo cunhado por Francis Galton, em 1883), racismo, imperialismo, fascismo, nazismo e lutas entre etnias nacionais.

Todavia, mesmo neste momento duro da história da humanidade, após o fim da guerra e o estabelecimento da paz e da Carta das Nações Unidas, as pessoas demonstravam certo entusiasmo com o futuro (frisa-se, essa nunca foi umaopinião unânime). Neste instante, fortificaram-se os clamores por democracia, liberdade e segurança social, e foram estabelecidas metas para cumprir a agenda pela paz, que duraria até os dias atuais.

A relativa estabilidade social foi rompida com o 11 de Setembro. Novos desafios passaram a fazer parte do dia a dia dos habitantes do globo e as tecnologias retiraram a lógica do pensamento do homem do século XXI. Os sociólogos ainda não conseguiram definir nossa sociedade. Sociedade do risco? Da internet? Da coca-cola? Sociedade pós-humana?

Além disso, os avanços na ciência estão ocorrendo tão depressa que não sobra tempo para discutir a razão ética dos experimentos. Pensando nisso, o filósofo do Fim da História e do Último Homem, Francis Fukuyama, classificou o período atual como pós-humano, vez que temos a possibilidade de alterar a própria genética para criar super humanos – e ainda não nos perguntamos onde isso pode nos levar. Ele não está sozinho em suas reflexões. O filósofo americano, Richard Rorty; e o sociólogo britâncio, Anthony Giddens, também se debruçaram sobre essa problemática da bioética e dos avanços tecnológicos.

Outro ponto é o fortalecimento da ideia de que existe vida fora da terra. Apressados podem achar que isso é obra da ficção científica. Entretanto, cada dia mais, os países investem em viagens espaciais e observatórios intergalácticos. A China gastou algo em torno de US$ 110 milhões na construção doRadiotelescópio Esférico, com o afã de descobrir vida inteligente fora da terra. O cientista britânico, Stephen Hawking, já afirmou: num universo infinito, deve haver vida extraterrestre! E para que a humanidade sobreviva, é preciso colonizar outros planetas.

O problema é que Hawking considera saber pouco sobre a provável vida extraterrestre; mas entende muito da história humana, história esta marcada pela dominação do mais forte pelo mais fraco. Numa visita extraterrestre ao nosso planeta, é fácil imaginar a alta probabilidade de nossos visitantes tentarem nos dominar. Como diria Tucidides (parafraseado por Voegelin), “(…), no mundo, o certo só tem importância em questões entre partes de poder equivalente; os fortes fazem tudo de que são capazes e os fracos suportam o que têm de suportar”.

É preciso que se pontue que nem sempre o mundo foi pessimista. No século XVIII, quando a sociedade convivia com a ordem mínima e ideias fragmentadas dos valores atuais, momento em que as nações estavam em guerra quase toda a parte do tempo, os iluministas especulavam sobre o futuro com otimismo, como solução para os diversos problemas práticos que surgiam, humanos e tecnológicos.

Na visão iluminista, a tradição é a grande vilã que promoveo declínio civilizatório, tendo em vista barrar a evolução da sociedade, então seguidora irracional de conceitos infundados. O progresso da humanidade poderia ocorrer quando a razão se sobrepujasse à tradição. Daí surgiram as ideias revolucionárias que possibilitaram a prosperidade da civilização.

Contudo, os iluministas também pareciam estar errados. Afinal, a razão levou ao sofrimento de judeus e outro povos no holocausto das décadas de 1930 e 1940, tudo conforme a mais pura racionalidade positivista e dentro dos padrões de legalidade da época.

Pensando nisso, por que a atual sociedade é descrente com o futuro?

Em nosso sentir, a resposta reside na seguinte afirmação: não existem alternativas factíveis ou consensuais para a sucessão de crises da atualidade. Vivenciamos, por exemplo, o descrédito no modelo de democracia representativa,a crise das ideologias, a crise alimentar, a crise ambiental, a crise econômica, a grande corrupção; sem, no entanto, conjecturarmos qualquer solução real e objetiva para tais problemas.

Encontramos o remédio que cura uma doença ao passo que surgem diversas outras mutações que, sequer, foram estudadas. A verdade é que, para grande parte dos cidadãos do século XXI, não há espaço para ser otimista quando somos bombardeados por presságios: tsunamis, radiação, ataques terroristas, ventos solares…

Toda a conjuntura reforça o seguinte entendimento: vivemos no mesmo planeta e compartilhamos dos mesmos problemas. Para que se tenha soluções objetivas para as crises que enfrentamos atualmente, é necessária a revolução de paradigmas, sobretudo no que tange a flexibilização de fronteiras e soberanias. Deve ganhar espaço o cidadão do mundo. A solução para tais problemas não está no pensamento isolado, hermético e egoísta. O futuro é a política globalizada.

Essa é uma discussão que permeia o provável período pós-Estado no sistema internacional. Podemos pensar que, num futuro próximo, as relações internacionais evoluam ao ponto de relativizar fronteiras e soberanias, de modo que o sofrimento do cidadão nacional seja sentido por todo o mundo, considerando-o como cidadão do planeta Terra.

Seja como for, um elemento é essencial para que a humanidade experimente o futuro de prosperidade, qual seja: a fraternidade entre os povos. Essa consignação não é nova. Kant, na “Paz Perpétua”,discorria sobre a fraternidade dos povospara a perpetuação da paz. A guerra só existe porque nos vemos como diferentes e pela necessidade de salvar “os nossos”.

Em 2016, alguns países já poderiam destruir o planeta, conjuntamente com seus satélites naturais, com o lançamento de uma bomba de capacidade de destruição em massa. Daqui alguns séculos, a tecnologia terá evoluído ao ponto de destruir qualquer planeta milhares e milhares de vezes com uma única arma de destruição.

Essa capacidade destrutiva leva a conclusão de que precisamos ser fraternos se quisermos sobreviver; pois, do contrário, a extinção da humanidade será antecipada pelo impulso negativo do ser humano. Para se chegar ao grau tecnológico de poder viajar na velocidade da luz, criar tecnologia ainda impensável, é preciso que sejamos bons, tolerantes, fraternos entre nós; se não for assim, é natural pensarmos que a aniquilação partirá do próprio homem que matará por egoismo.

Dessa forma, ser pessimista com o futuro da humanidade é ser pessimista com a natureza do homem, pois ele representa o maior mal – ou– o maior milagre que o planeta Terra já proliferou.Se somos pessimistas, deve ser quanto a nós mesmos, pois apenas nosso impulso negativo pode antecipar o fim da história.

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