Trá Trá Trá: a judicialização onomatopeica

Se a pergunta a respeito da principal recordação auditiva fosse feita aos foliões Brasil afora, com certeza a resposta seria formada pelo conjunto onomatopeico “Trá trá trá”, afinal mais de 50 milhões de pessoas visualizaram o vídeo e outras milhões pularam entre ladeiras, trios e avenidas.

            Aos ouvidos desavisados vale a recordação, estas onomatopeias respondem quase pela metade dos versos da música “Metralhadora”, a qual se tornou hit do carnaval deste ano.  Da mesma forma como outras músicas de alto impacto que no Brasil, em geral, se popularizam no Carnaval, além da audiência e das acusações de plágio existem as críticas em torno da falta de conteúdo e, por isso, o rótulo como construção diversa daquilo que se convencionou chamar de música.

            A provocação desta semana, entretanto, envolve fatos novos no espaço carnavalesco, porém quando observados enquanto conjunto aponta certa tendência nas transformações do mundo sensível, sobretudo nas águas inquietas entre o direito e a política.

            Judicialização, nesse contexto, é ampliar importância e participação efetiva do Poder Judiciário nas esferas social, econômica e política da vida, ou seja, se expande a frequência com que estas instituições interferem nas relações sociais.

Assim, apareceu a recomendação do Ministério Público da Bahia ao governo daquele estado que “proíbe o uso de recursos públicos para contratação de artistas que executem músicas que incentivem a violência ou exponham as mulheres a situação de constrangimento, ou contenham manifestação de homofobia, discriminação racial e apologia ao uso de drogas ilícitas”, o que instantaneamente foi associado pela imprensa e pelas pessoas através das redes sociais a música “Metralhadora”.

            Banalização e apologia à violência, incentivo ao tráfico de armas e exposição às mulheres ao constrangimento resumem as principais críticas e é neste ponto que as provocações ganham maior relevo.  Embora este não seja o espaço adequado para esmiuçar tais questões, vale salientar que não se pode atribuir uma conjuntura que atravessa a responsabilidade do Estado na questão da segurança pública e aspectos sociológicos, econômicos e políticos a uma música, afinal o senso comum está repleto de argumentos que refletem a ausência de estudo e conceitos bem fundamentos e resultam, ao final, apenas em linguagem sem sentido.

            É razoável admitir a presença do duplo sentido na cultura brasileira, lembrando que ele foi formado em meio à ausência de liberdade de expressão e a hegemonia da hipocrisia, basta recordar-se de Ary Barroso e “Eu dei” (1937), de Genival Lacerda com “Severina Xique-Xique” (1975), do “Rock das ‘aranha’” (1980) com Raul Seixas, ou ainda mais recentemente o “Lepo Lepo”, da banda Psirico.

            O que deve se observar é o momento em que a luta contra o patrulhamento ideológico ou o “politicamente correto” é utilizado como manobra para camuflar práticas perpetuadoras da discriminação, seja no humor, na literatura ou na música, mas, para isso, é imprescindível estudar contextos e entender os acontecimentos relativos à época, dessa forma, cabe relacionar a presença de racismo em “O teu cabelo não nega” (1929), de João e Raul Valença e Lamartine Babo.

            Por outro lado, também deve se ver o uso destas bandeiras na tentativa, às vezes retórica, de efetivar os direitos fundamentais do cidadão com a finalidade prática de aplicar certa ideologia, como, por exemplo, através da difusão de gênero musical específico. Do mesmo modo, a postura de instituições que na defesa exacerbada de algumas posturas tentam substituir a sociedade civil, provocando crises de legitimidade.

            A judicialização da onomatopeia, portanto, representa uma ideologia (cada um que investigue e atribua nomes e intenções àquelas, segundo o que mais lhe couber), contudo são necessários alguns questionamentos: a redução do esforço mental trazido pelo “Trá trá trá” quer dizer alienação ou diversão? Esses hits revelam a democratização do acesso à música (aos profissionais e ao público)? A música hoje não está pior nem melhor, todavia está mais próxima do que é ser brasileiro?

            Encerra-se, pois, com as palavras da cantora Tays Reis sobre a música e o respectivo vídeo no que se assemelha a uma carta de intenções “A Vingadora é forte e feminista no sentido musical. Até então, mulher não fazia arrochadeira”; “Foi o nosso jeito de mostrar que a mulher pode dominar tudo. Somos todas vingadoras”.  Então, quem diz que é alienação? Qual a ideologia das instituições? Quais as ideologias que nos atravessam? Por que judicializar a onomatopeia?

Vinícius Leão é pesquisador e advogado.

Deixe uma resposta

*