We Shall Overcome: A relação entre a música e a luta pelos Direitos Humanos no contexto da contracultura

1. INTRODUÇÃO

A música é, por excelência, manifestação dos sentimentos do ser humano através do som. Tais sentimentos podem ser, desde sentimentos afetivos, românticos ou desiludidos, até sentimentos ideológicos, de doutrinação política, ou que representem a luta por um ideal. Neste artigo, procuraremos expor as relações entre a produção musical da época denominada contracultura com a luta pelos Direitos Humanos, em especial nos Estados Unidos da América e no Brasil. Para tanto, analisaremos especificamente três canções: We Shall Overcome, de autoria desconhecida, Blowin’ In The Wind, de Bob Dylan[1], e Para Não Dizer que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré[2].

Denomina-se contracultura o movimento, com raízes na literatura dos anos 1950, em especial a poesia beat, bem como no existencialismo de Sartre e que obteve seu auge na década posterior, caracterizado principalmente pela contestação aos valores conservadores da sociedade. Desenvolveu-se especialmente nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina[3], tendo produzido um longo acervo literário, cinematográfico e musical, considerado de extrema qualidade pela crítica, figurando boa parte da produção da época como os melhores de cada gênero.

Durante toda a década de 1960, toda a produção artística esteve, ao menos em parte, vinculada ao movimento da contracultura. Sob sua influência, eclodiram os movimentos dos direitos civis, bem como as rebeliões estudantis, notadamente as que ocorreram em maio de 1968, na cidade de Paris, além dos grandes protestos de resistência às diversas ditaduras que se proliferavam pelo mundo, tendo em vista o grande conflito ideológico no qual o mundo encontrava-se imerso (Podemos citar, por exemplo, a passeata dos cem mil, no Brasil, e a Primavera de Praga, na então Tchecoslováquia).

O movimento foi também responsável pela realização de grandes festivais, que servem de parâmetro até os dias atuais para os produtores de eventos culturais. Destacam-se especialmente o Festival de Monterey, realizado na Califórnia em 1967, e o mais famoso de todos, Woodstock, ocorrido nas proximidades de Nova York, em agosto de 1969.

Com o passar do tempo, porém, a contracultura perdeu força, sendo que nos primeiros anos da década de 1970, já não havia tantas referências aos ideais do movimento – paz, amor livre, liberdade, etc – na produção artística, notadamente a musical.

2. DIREITOS HUMANOS: UMA ANÁLISE A PARTIR DA 3ª GERAÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS

A história dos Direitos Fundamentais – garantias inerentes ao ser humano, que devem ser respeitadas, cuja proteção constitui-se como objetivo central do Estado – costuma ser dividida em fases históricas, de acordo com o período no qual tais garantias passaram a ser asseguradas, uma vez que os Direitos Humanos são conquistados através de reivindicações dos indivíduos e grupos sociais.[4]

A primeira geração consagrou direitos como vida, liberdade e propriedade, os chamados “direitos da liberdade”, em alusão à tríade de valores da revolução francesa – liberdade, igualdade e fraternidade – importante evento que contribuiu para a consolidação destes direitos. Também são garantias características desta geração o direito ao habeas corpus, igualdade perante a lei e a proibição da tortura, além da liberdade de pensamento e expressão.

A segunda geração consagrou os direitos sociais, sob influência dos movimentos operários, da doutrina social da Igreja Católica, além das ideologias de cunho socialista que se multiplicaram no século XIX. Educação, previdência e saúde foram as garantias características desta fase, que se notabilizou pela exigência perante o Estado da prestação de determinados serviços, com vistas ao bem estar social.

A terceira geração forjou-se especialmente no pós II Guerra Mundial, e propunha garantias ligadas á ideia de solidariedade entre os povos, distanciando-se, em determinados aspectos das gerações anteriores, uma vez que a primeira e segunda gerações defendiam direitos de cunho individual e coletivos (porém limitados pela jurisdição territorial do Estado), respectivamente, tendo a terceira geração rompido as barreiras territoriais ao reivindicar direitos válidos para toda humanidade, considerada como um corpo uno, sem divisões políticas.

Destarte, os direitos de terceira geração são efetivados no contexto da justiça internacional, apresentando-se como normas cogentes internacionais, que excedem os limites das jurisdições territoriais do Estado.

O aspecto mais importante a ser considerado acerca dessa geração de direitos fundamentais é que o único requisito ou condição imposta para a fruição de suas garantias é a de pertencer ao gênero humano, ou seja, ser homem, em oposição à lógica empregada pela ditadura nazista alemã, que condicionava a existência dos direitos a caracteres raciais.

Portanto, a terceira geração de direitos fundamentais se caracteriza por ter efetivação internacional, acima das limitações territoriais de cada Estado, bem como por apresentar direitos acessíveis a todos, sem a imposição de condições para o seu exercício, bastando que seu titular seja humano.

Podemos citar como garantias de terceira geração o direito à paz, à auto-afirmação dos povos, e outros direitos, chamados difusos e coletivos, calcados na ideologia da solidariedade universal.

Os direitos desta geração também se diferenciam daqueles reivindicados pelas gerações anteriores por se apresentarem de modo intangível, abstrato, em oposição à concretude e exatidão das gerações anteriores. Enquanto as primeiras gerações exigiam do Estado o cumprimento de deveres tangíveis, como o fornecimento de serviços de saúde, ou o direito ao voto, a terceira geração reivindica garantias como paz e solidariedade, cujo cumprimento não depende exclusivamente do Estado, mas também dos indivíduos em geral.

A compreensão dos fundamentos do terceiro momento dos direitos fundamentais é de fundamental importância para a compreensão do tema trabalhado neste ensaio, tendo em vista que, como a discussão acerca da terceira geração de direitos fundamentais, a contracultura também tem suas raízes no pós II Guerra, e ambas surgem como reação aos horrores praticados durante o conflito.

Como veremos, os valores da terceira geração de direitos fundamentais, além de sua manifestação nos tratados internacionais de direitos humanos, também encontraram guarida na produção artística, notadamente a musical.

3. ANÁLISE DAS MÚSICAS

3.1. We Shall Overcome

Escrita a partir de um refrão de um hino religioso, a canção We Shall Overcome (Nós Iremos Vencer) tornou-se o hino da resistência anti-racista dos anos 60. Embora de autoria desconhecida, tornou-se internacionalmente divulgada especialmente após ter sido gravada por Joan Baez[5], que a cantou na célebre Marcha Sobre Washington, no ano de 1963, auge do movimento dos direitos dos negros, liderado por Martin Luther King. Curiosamente, nesta mesma ocasião, foi proferido o lendário discurso “I Have a Dream”, ícone na história da luta pela igualdade racial.

A letra é repleta do sentimento de esperança e de paz, caracterizados no próprio título da canção que, não por acaso, é até hoje considerada um dos hinos da luta pelos direitos humanos.

Analisemos agora um trecho da canção:

Nos iremos vencer, nós iremos vencer, nós iremos vencer um dia. Do fundo do meu coração, eu acredito que nós iremos vencer um dia. Nós andaremos de mãos dadas (…) Nós não estamos com medo hoje (…) Nós viveremos em paz, um dia, no fundo do meu coração eu creio, nós viveremos em paz um dia. (Tradução nossa)

 

Conforme pode ser aduzido a partir da análise da letra, a canção estimula a esperança por dias melhores, além de exaltar a união e a solidariedade entre os povos, bem como propaga a cultura da paz, valores que também embasam o pensamento jurídico da terceira geração dos direitos fundamentais, como pode ser observado no preâmbulo e no artigo I da Declaração Universal dos Direitos Humanos:

Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo (…) Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão  e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.

Além da canção citada, Joan Baez lançou muitas outras músicas que se tornaram hinos à liberdade e aos direitos do homem. Destacamos outra composição sua, Donna Donna, elegia aos judeus mortos no holocausto.

A militância política da cantora criou ares internacionais, tanto que ela foi vítima da censura de diversas ditaduras, que impediram apresentações suas. Assim ocorreu na antiga União Soviética, Argentina e Brasil.

3.2. Blowin’ In The Wind

 

Talvez a mais conhecida das três canções, foi escrita e gravada por Bob Dylan, que a lançou no disco Freewelin’ Bob Dylan, no ano de 1963. Imediatamente adotada pelos movimentos de direitos civis da época, tornou-se o maior hino em prol dos Direitos Humanos de todos os tempos, tendo sido regravada por um sem número de cantores – incluindo a própria Joan Baez – em diversos idiomas.

Seguindo a mesma linha pacifista de We Shall Overcome, sua letra traz diversas perguntas, inquirindo acerca de quando a humanidade passará a respeitar os direitos e a liberdade do homem. Vejamos agora um trecho da música:

Quantas estradas o homem precisará andar antes que o chamem de homem? (…) Quantas vezes balas de canhão precisarão voar antes de serem para sempre abandonadas? (…) Sim, e quantos anos poderão as pessoas existir antes que se permita que elas sejam livres?(…) A resposta, meu amigo, está soprando no vento, a resposta está soprando no vento (Tradução nossa).

 

Neste ponto encontra-se a diferença básica entre as duas canções. Enquanto a primeira afirma veementemente que a humanidade irá viver em paz, com liberdade e igualdade, a outra lança um olhar de dúvida, talvez descrença, tendo em vista que o homem, causador de todos os males citados na canção, é também o único que pode resolvê-los.

Observa-se, com destaque, o questionamento feito na frase “quantas estradas o homem precisará andar antes que o chamem de homem”, ou seja, quantos processos históricos serão suficientes para que se reconheçam nas pessoas, independentemente de raça, credo ou nacionalidade os atributos para exercício de seus direitos?

A música também reivindica liberdade, paz e solidariedade entre os povos, que são as mesmas exigências da terceira geração dos direitos fundamentais, expressas principalmente nos tratados internacionais de Direitos Humanos.

O lançamento de canções de protesto como Blowin’ In The Wind fez de Dylan um dos heróis do movimento pró Direitos Humanos, que adotou a canção em questão como hino oficial. Após 1965, o cantor deixou de priorizar as temáticas políticas, tendo se voltado para temas mais introspectivos, inclusive com passagens pela música religiosa, não tendo, contudo, abandonado completamente as canções de protesto, obtendo bastante sucesso em 1976 com a canção Hurricane, que criticava duramente a justiça dos Estados Unidos, em face do caso do boxeador Rubin Carter, condenado por um homicídio que não cometera, em um inquérito baseado quase que exclusivamente em acusações infundadas, em especial por Carter ser negro, conforme vemos na letra:

Aí vem a história de furacão, o homem que as autoridades culparam por algo que ele nunca fez. (…) Em Paterson, é assim que as coisas acontecem. Se você é negro, é bom nem sair na rua (…). Rubin Carter foi falsamente julgado (…). E não teve outro jeito, a não ser me fazer sentir vergonha de viver numa terra onde a justiça é um jogo. (Tradução Nossa).

 

O estilo poético de Bob Dylan, caracterizado pela agressividade de suas letras influenciou diversos artistas em todo o mundo. No Brasil, podemos citar o paraibano Zé Ramalho, que chegou a gravar um disco com composições do estadunidense, incluindo sua versão para Blowin’ In The Wind.

Outro aspecto a ser considerado, tanto na obra de Bob Dylan, quanto na produção musical da contracultura em geral é o fato de terem sido fortemente influenciadas pelo blues, a música dos negros norte americanos, tendo sido a música pioneira na derrubada dos valores racistas até então institucionalizados na sociedade.

3.3. Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores

Diferentemente das outras canções analisadas, esta composição não tem um tom pacifista mostrando, ao contrário, certa decepção com a ideologia pacífica de enfrentamento do regime. Tanto que foi interpretada como sendo uma convocação à luta armada por parte do regime militar brasileiro, tornando-se imediatamente proibida pela censura.

Lançada em 1968 pelo paraibano Geraldo Vandré, é considerada uma das mais importantes composições da história da música popular brasileira. A canção foi executada a primeira vez no Festival Internacional da Canção de 1968, tendo obtido a segunda colocação.

A letra relativamente simples, com rimas facilmente memorizáveis tornou a música um sucesso imediato, embalando a resistência popular contra a ditadura de tal maneira, que levou, junto com outros acontecimentos, à decretação do Ato Institucional Nº 5, ápice do endurecimento da ditadura militar brasileira.

Convocando o povo a lutar contra o regime e criticando o militarismo da época, como pode ser visto no trecho a seguir:

Há soldados armados, amados ou não, quase todos perdidos de armas na mão. Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição, de morrer pela pátria e viver sem razão. Vem, vamos embora, que esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

 

Ou, ainda, expressando a decepção com a ideologia da luta pacífica, expressa no trecho “Ainda fazem da flor seu mais forte refrão, e acreditam nas flores vencendo o canhão”, Vandré tornou-se o porta voz da resistência cultural, também encabeçada por Chico Buarque.

Inclusive, o uso da expressão “flor” como emblema da resistência pacífica faz menção à contracultura estadunidense, cuja geração foi denominada de “Flower Power” (Força da Flor). As flores, aliás, sempre foram associadas a esse significado. Notabiliza-se, por exemplo, o caso da revolução dos cravos, que derrubou a ditadura Salazarista portuguesa, na qual as pessoas saíam de casa munidas apenas de cravos. Vale ressaltar que, naquela ocasião, uma das canções que embalaram a luta da multidão foi Grândola Vila Morena, também já gravada por Joan Baez[6].

A canção ainda faz duras críticas à situação social pela qual o país passava, citando a fome e sua conseqüente relação com a concentração de terras, conforme pode ser observado no trecho: “Pelos campos a fome em grandes plantações”.

Vandré, após o lançamento de Pra Não Dizer que Não Falei Das Flores, passou a ser perseguido pelo regime, tendo sido preso e supostamente torturado, afastando-se da carreira musical, vivendo atualmente em estado de quase completo isolamento, na cidade de São Paulo.

4. CONCLUSÃO

Como vimos, a música é também potencial veiculadora de ideologias políticas, sociais, bem como expressa os desejos e anseios do homem. Tendo sido fortemente utilizada, durante o período histórico da contracultura, para veicular as ideias de paz, amor, liberdade e resistência, serviu como incentivo e estímulo para as lutas que se deram naquela época.

Conforme afirmado no decorrer deste ensaio, os Direitos Humanos efetivam-se no contexto de lutas e reivindicações. A arte também pode estar engajada neste processo e, como observamos, ela foi de fundamental importância no contexto das reivindicações ocorridas durante os anos 60 do século XX.

Desta forma, compreendemos o valor que tem a música para a humanidade, não apenas como veiculadora de sentimentos e emoções, mas também como veículo de auxílio à humanidade na luta pelos Direitos Humanos, garantias que, apesar de exaustivamente previstas em tratados, convenções e nas legislações dos Estados, ainda encontram-se distantes de sua plena efetivação.


[1] Cantor e compositor estadunidense, nascido no ano de 1941. Transita entre os estilos Folk e Rock, com incursões no Blues, Country e Gospel. Em 2004, a revista Rolling Stone, maior revista de crítica musical do mundo considerou uma de suas canções, Like a Rolling Stone, a maior música de todos os tempos, bem como o classificou como 2º maior artista da história, além de incluir 9 discos seus na lista dos 500 maiores álbuns de todos os tempos.

[2] Paraibano de João Pessoa, nascido em 1935, destacou-se durante a ditadura militar pela composição de diversas canções de protesto. Tendo sido perseguido durante o regime de exceção, vive atualmente afastado da carreira musical.

[3] Revista Cult, edição 152, Novembro de 2010.

[4] Conforme a afirmação de Bobbio, os Direitos Humanos não surgem de uma vez, mas se constroem ao longo do tempo, de acordo com a necessidade do ser humano (BOBBIO, 1988). Opinião semelhante é a de Hannah Arendt, a qual assevera que os Direitos Humanos são fruto de um longo processo de construção dinâmico. (ARENDT, 1979).

[5] Nascida em 1941, em Nova York, é cantora e compositora de música Folk, além de ativista dos direitos civis. Apresentou-se no primeiro dia do célebre festival de Woodstock.

[6] Vaz, Sérgio. Joan Baez volume 1: Uma trajetória Luminosa. Disponível em: http://50anosdetextos.com.br/2010/joan-baez-volume-1-uma-trajetoria-luminosa/

 

 

Por  Camilo de Lélis Diniz de Farias –  Acadêmico do curso de Direito da Universidade Estadual da Paraíba. Membro do Grupo de Estudos Direito, Tecnologia e Realidade Social: Paradoxos, Desafios e Alternativas, na linha de pesquisa em Bioética e Direitos Humanos. Membro fundador e Editor da Revista Eletrônica A Barriguda, e Secretário da AREPB

 

 

2 comentários

O artigo contribuiu bastante para nossa equipe de Arte-educação, pois no ano de 2012 a Secretaria de Educação do município de Maracanaú-Ce está desenvolvendo seu trabalho junto às escolas com o tema Educação na perspectiva dos Direitos Humanos. Com certeza ficamos inspiradas para utilizarmos as músicas citadas.

Um abraço!!!

Gláudia e Isa
Equipe de Arte-educação
Coordenadoria de Desenvolvimento Curricular.

Deixe uma resposta

*